domingo, 25 de janeiro de 2026

Unfuck youtself

 Muita gente tem um cinismo exagerado vs. livros de autoajuda. Eu consumo muitos. Hoje em dia em formato audiobook, durante longas horas de treino de corrida ou condução. Considero que há um fenómeno parecido com o dos filmes de terror. A maior parte são maus, mas os bons valem a pena. Mesmo dentro dos livros que não são espectaculares, há algumas pérolas ou conceitos que acabam por ser úteis ou reveladores e não apenas a confirmação de bom senso que já tínhamos.

A série de livros Unfuck Yourself de Gary Bishop é um bom exemplo. Tem um conceito que achei algo revelador: a tendência para a autosabotagem quando tudo está a correr bem e como essa autosabotagem nasce de uma crença subconsciente de que não merecemos o que de bom está a acontecer. Um pessimismo que precisa de ser materializado.

Bishop não aborda de forma especializada o tema de drogas (que me lembre) mas penso que a teoria se aplica de forma muito directa ao meu padrão.

Estou saturado de ouvir coaches e experts de alcool constantemente a colocar a tónica nos traumas, nos maus acontecimentos da vida, nos problemas, nas depressões e por aí fora como causas de relapsos no consumo. O que observo em mim e em muitos outros é uma desconexão completa entre os dois e às vezes exatamente o oposto, como é o meu caso: bons momentos, a vida correr-me muito bem, situações felizes e sociais (estar com bons amigos), românticas (um primeiro date), sucesso no trabalho (um dia que correu muito bem) ou desporto (ex: acabar uma ultramaratona depois de meses de treino) são gatilhos muito mais fortes que maus acontecimentos. Sei que isto não é exclusivo de mim, já o escrevi aqui, mais pessoas que lidam com a droga álcool relatam o mesmo e destroem o cliché simplista de que se trata de "automedicação".

Numa primeira análise eu pensei - e ainda penso que é um factor - que nessas ocasiões ou sensação positiva há um factor de ânsia por amplificar a sensação boa e que o mereço. Isto resume-se a este diálogo mental: "mereces, estiveste bem, tens estado bem, está tudo bem, vamos festejar, tens tudo sobre controlo, olha para ti, you rock, qual é o problema de bebermos hoje e esta semana, depois páras de novo, agora aproveita o momento, saboreia"

Quando ouvi o Gary Bishop falar na questão da autosabotagem acendeu-se-me uma luz no tablier. Se admitir que não sou completamente estúpido, a nível racional e também subconsciente eu tenho de saber que se as coisas me estão a correr bem num ou vários domínios, beber álcool vai iniciar um ciclo de consumo diário e um retrocesso inevitável. Desta panóplia de circunstâncias apenas identifico os dates como a única situação em que a droga tem um benefício real (lamento, mas tem). Nas outras não tem. Mas mesmo na questão dos dates há o tema da autosabotagem. A verdade é que quando atravesso um período sóbrio a minha capacidade de atração se multiplica por 10. Nunca o consegui explicar inteiramente (podia falar de energias), mas pode ter a ver com a autoconfiança, o meu aspecto físico ou fazer mais coisas interessantes.

Em qualquer caso, é possível que esse impulso de consumir álcool quando tudo me está a correr pelo menos muito melhor do que quando bebo, se deva a eu não achar que mereço. Que tenho um ceticismo face ao bom. Um: "ok, eu consigo parar 2-3 meses, mas vá lá meu, achas mesmo que vais ser uma dessas pessoas que deixa de consumir álcool um ano? Ou para sempre?" Não sei se isto é um factor. Eu não o noto de forma consciente. Apenas penso que é credível que o seja. Apesar de ter vontade de melhorar em múltiplas áreas e até me considerar optimista, posso ter algures um fatalismo e falta de autoestima que me faz detonar as coisas que estão a correr bem.

Se nao tenho 100% de certeza disto ser um fator relevante, tenho a certeza que outro é o medo de perder a minha identidade. Se beber é um ritual diário durante décadas, é óbvio que se torna um sítio familiar. Deixar isso de vez, sem autosabotagem, significa algo desconhecido e potencialmente assustador. Esse factor eu tenho a certeza que tem impacto. Penso que os dois estão ligados. É um "tu sabes quem és, não és esta pessoa que deixa um vício para trás de vez, quem é que estás a enganar, eu e tu sabemos".

Talvez aí sim, resida a questão do "trauma de infância"? É indiferente em termos práticos. Mas é evidente que há algo de autosabotagem em que acabamos por fuck ourselves quando temos tudo na mão, como que para confirmar as nossas previsões mais pessimistas.



sábado, 17 de janeiro de 2026

Encontrar uma nova identidade

 Estava a fazer limpezas na casa, a arrumar tudo, lavar etc. com os meus podcasts habituais de recovery e decidi mudar para outras coisas focadas em ultramaratonas e treino. Isto lembrou-me um texto que já devo ter escrito numa versão anterior do blogue ou se não escrevi, pensei de certeza.

Um desafio gigante no caso específico do álcool é criar uma nova identidade pós-fase do vício, pós "recuperação". O álcool é uma droga muito lenta na maior parte dos casos, pode demorar décadas até ser um problema suficientemente grave para chegarmos ao ponto de ativamente tentar parar. Depois, no meu caso, segue-se o que é uma autêntica epopeia de sucessos e retrocessos. É uma luta titânica, um desafio. No meu caso durou mais de 10 anos pelas razões que já abordei, coisas como ser bom a "gerir" os danos e ter algumas red-lines como nunca comprar bebidas brancas para casa e manter-me em cerveja e vinho ou nunca beber de manhã e almoço em dias de trabalho.

Sim, lembro-me que já escrevi sobre isto, mas provavelmente em 2025 numa das paragens. Um problema é que esta luta interna e épica transforma-se numa nova identidade. Somos alguém que está a lutar e vencer um vício lixado. De uma forma um pouco perniciosa, é uma luta interessante. Claro que ser pai ou trabalhar são coisas mais importantes, mas um vício está a montante dessas coisas (alguém que tenha um vício grave não consegue ser bom pai ou trabalhar bem). É algo que é basilar. Se fossem fazer um filme da nossa história ou um livro, esse combate, tanto a fossa como as progressões, seriam mais interessantes do que eu ser pai ou trabalhar em que sou igual a outras pessoas.

Um apelo da abordagem falida do método dos AA envolve manter a identidade do álcoólico. Mesmo alguém que deixou álcool durante anos continua a ir a reuniões e a autodenominar-se como viciado. Isto para mim é estranhíssimo, mas a alternativa é complexa. Ao menos AA ancora a nova identidade num permanente purgatório.

Oiço conteúdos de ex-drinkers mas que se tornaram profissionais disso, coaches. E sendo muito úteis, também é um facto que são a outra face da moeda: continuam ligados à temática do álcool e até mais forte que um alcoólico, é a profissão deles. Não faço qualquer juízo e agradeço o trabalho que fazem, muitas vezes gratuito e de qualidade.

Um receio óbvio é o virar da página. E se o álcool deixasse de existir praticamente no plano de um ex-consumidor? Levar à letra o conselho do magistral Alan Carr e "get on with your life" com que ele acaba o livro sobre o tema? É complicado encontrar outro arco narrativo, outra "demanda" existencial tão interessante e apaixonante. Vejo isto nas comunidades online que frequento. Se as pessoas estão lá, muitas vezes a lamuriar-se ("hoje o dia foi difícil", "isto fica mais fácil?", "ainda pensei em beber mas resisti") é porque obviamente ainda estão conectadas.

Eu ainda estou a explorar. Para já o foco está a ser em ser o melhor ultramaratonista que consigo. Se que não é com a minha idade (meio século) que serei elite (nem quero). Não se trata disso. Na verdade não tenho grandes ambições excepto fazer grandes provas em sítios incríveis e hikes pelo mundo. De resto, quero progredir no emprego fazendo trabalho interessante, ter namorada fixe, educar filhos, pescar, tocar piano, enfim, coisas normais. Para mim o substituto penso que está nas ultramaratonas que já faço há 10 anos. Penso que é esse porque tem um elemento de aventura apaixonante. Ando a treinar todos os dias, às vezes 2x por dia. É um caminho de progresso muito longo, mas uma decisão agora tem um impacto radical no meu futuro e rotina.

Isto está a ser a minha âncora de substituição até ver. Mas a verdade é que não sei bem o que vou ser sem álcool e isso é algo que assusta um pouco. Beber todos os dias é um guião, um lugar confortável e familiar, mesmo que se sofra muito nos intervalos. E bebi toda a idade adulta. Por isso há aqui algo de mistério, de grande ponto de interrogação. Descobrir quem é que somos, afinal.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Reação à ideia de que se pode ser um "pós-alcoólico" e voltar a beber de vez em quando.

 Há um tipo de que gosto muito, o Kohdi Rayne, do programa Beyond Sober, tem um bom podcast com conteúdos bastante bons e que me ajudaram. Também vende programas de apoio etc mas que nunca frequentei.

Tal como face a todos os autores da esfera de métodos e princípios para deixar de beber, gosto de pensar no que diz e reagir com as minhas próprias ideias. Há coisas que diz que achei muito relevantes. Por exemplo, ele não se define como "sóbrio" porque sóbrio é estar entre bebidas. E tem razão. Serei eu "sóbrio" face a heroína? As pessoas que nunca beberam definem-se como "sóbrias"? Não. Se tomares a decisão de já não beber álcool, és só uma pessoa que não bebe álcool. Não nos definimos por não consumir drogas que não consumimos. Isto está no espírito do "beyond sober" porque se trata de uma nova identidade e não de uma luta permanente como o espírito (que também acho péssimo) dos AA e que o Kohdi critica muito. Em que se assume que queremos beber mas infelizmente não podemos e por aí fora.

Dito isto tudo que é demasiado resumido, ainda ontem ouvi outro podcast dele em que vem outra vez com a conversa da diferença entre um recovering alcoholic e um ex-alcoholic. Um recovering é o arquétipo do tipo dos AA, podem passar 10 anos, 20 e ele continua identificado como alguém que não pode beber. O ex-alcoholic é alguém que já não bebe e não quer, é passado.

Mas aqui está sempre a introduzir a ideia peregrina de que o estado máximo de libertação é poder beber e ter um buzz e não ficar viciado porque já não se quer beber.

Isto é algo que já pensei no passado, mas que acho que está profundamente errado. E que só contemplo com possível no discurso do Kohdi porque ele vende cursos. E vende mais dizer a alguém com vício de álcool que no fim da estrada está uma vida em que se ele quiser pode beber de vez em quando, visto que vai quebrar o vício e a dependência.

Isto é o mesmo princípio que fez o Alan Carr chamar ao livro de deixar de beber "the easy way to control alcohol", mesmo que depois na prática ele diga que não se pode beber nunca mais. Contudo, ele admite o artifício e diz que o livro fosse "the easy way to quit alcohol" (igual ao do tabaco) ninguém comprava o livro porque as pessoas com problemas com álcool detestam pensar que nunca mais podem beber.

Mesmo assim, acho que é uma ideia algo irresponsável e má da parte do Kodhi... Eu cheguei onde estou e custa-me perceber como é que um gajo que não bebe álcool nenhum ele próprio, depois de passar por uma vida de colapso do fígado e hospitalização após anos a beber 1,5L de vodka por dia, pode vender a ideia que ao fim do túnel está a possiblidade de beber como pessoas "normais" e apanhar um buzz. Eu aposto na boa como se o próprio Kodhi beber 2 shots de vodka, vai acabar a mamar 1,5 L de vodka em dias. Ele não o faz, não pratica o que prega (e ainda bem), mas devia pregar mais o que pratica.

Em nenhum discurso dele admite "não posso beber, se beber resvalo para o vício outra vez". Dá o ar que transcendeu o álcool e simplesmente não quer beber. E eu acho bem. Só acho mal é dizer que outra pessoa se quiser (e comprar o curso dele) pode beber de vez em quando se é isso que quer quando o próprio sabe que se fodia todo se fosse beber um par de shots.

Penso que já o devo ter escrito várias vezes nos poucos posts que este blogue tem: o álcool é uma substância química viciante que é bomba nuclear no cérebro. Não são 10 mil horas de podcasts e meditação ou terapia ou autoreflexão que mudam isso.

Se alguém consumiu heroína anos e anos e deixa heroínha, isso não significa que agora possa usar heroína de forma recreacional e ocasional. Isto é brutalmente intuitivo no caso de drogas como heroína ou coca, mas no caso do álcool parece que não. Mesmo que o consumo de álcool se arraste décadas e nessas décadas seja construída uma mother board no cérebro que vai acender como uma árvore de natal se sentir álcool, nem que sejam anos depois, há artistas do meio que falam do álcool como se não fosse uma droga inerentemente viciante.

Não tem nada a ver com um lado racional e elevação do espírito, superação, teologia, filosofia... É químico, biológico. Impossível de vender e contrariar, digo eu.

Mesmo na parte racional, há algo profundamente contra-intuitivo. Se alguém transcende o álcool (algo que ainda nunca consegui fazer) isso significa que percebeu que não o quer consumir nunca. Ora, se abre uma excepção... está a admitir que afinal vê benefícios e um lugar para o álcool na sua vida. Não há meio termo. Eu no limite até consegui "moderar" 1 ou 2 semanas depois de voltar a beber. Mas sem falha, voltei sempre a cair num consumo pesado diário. E percebi ao ouvir pessoal que esteve anos sem beber e voltou a cair, que podem passar anos e é igual. É a puta da droga em si, ponto. Cheguei a uma fase anterior em que eu já sabia que se bebesse ia voltar a um ciclo. Mas na altura sabia que quando as coisas ficassem más eventualmente parava para um período de abstinência como o meu actual. O problema é que sempre que estava num ciclo mau ele arrastava-se demasiado tempo. Em vez de um simples fim de semana deprimente a beber, eram 2 meses. Percebi que só consigo ter uma motivação real para parar quando a "dor" ou o "sofrimento" atingem um nível tal que o medo que geram me força a escolher parar. Enquanto for gerível, não vou parar. Nem eu nem ninguém. É por isso que um tipo que consiga por uns tempos beber só um pouco ao sábado, vai aos poucos também resvalar para mais e mais e mais... não vai decidir parar do nada visto que uns copos num sábado não lhe causam desconforto suficiente

Eu não tenho opiniões positivas sobre heroína, pelo contrário, nunca sequer fantasiei em experimentar. Mas o que acham que acontecia se eu começasse a experimentar heroína regularmente. Só um bocadinho aos fins de semana, socialmente? Enfim, isto parece-me muito simples. Que me digam "olha deixaste de beber 6 meses, podes beber hoje, sabes que vais acabar viciado outra vez e passar pelo processo todo outra vez e vai ser uma merda, mas tu é que sabes", isso é mais honesto e realista. Não gosto de vendedores de banha da cobra.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Dia 30 - resumo dos efeitos e ponto de situação

 Não tenho vindo aqui, queria só anotar rapidamente algumas transformações de 30 dias sem álcool.

  1. Sinto-me muito melhor em geral. Acordo com mil vezes menos ansiedade, mais energia.
  2. Treinos muito mais fáceis e recuperação mais rápida. Estou a treinar muito e a sentir-me cansado, mas a notar progressos.
  3. No plano "amoroso", acho que foi coincidência, mas tive uma coisa particularmente forte. Se o início pode ter sido mera coincidência temporal, penso que a evolução do caso se deveu a estar 100% lúcido, mais consciente, menos ansioso etc. Não me alongo nesses tópicos porque não é o propósito do blogue, mas ocorreu-me que talvez estar mais confiante passe logo desde início em chats.
  4. Durmo uma noite e só acordo 1 vez, geralmente ao fim de 4-5 horas, depois adormeço, ando pelas 7. Indicadores de sono medidos pelo relógio garmin melhoraram muito.
  5. Taxa cardíaca de repouso e níveis de stress colapsaram.
  6. Comecei a socializar. Todos os fins de semana tenho combinado coisas. Isto é uma mudança radical que nem me apercebo bem. Por um lado sinto mais a solidão ou tédio, vs quando bebia, mas por outro faz-me resolver isso a combinar algo concreto em vez de ficar por casa.
  7. Trabalho a correr bem, autoconfiança a disparar. Sinto-me mais em controlo.
  8. Estou a começar na velocidade de cruzeiro com menos cravings, os físicos desapareceram.
  9. Recomecei a pescar regularmente e até apanhei um belo robalo.

O que não mudou:
  1. Não consegui deixar de fumar e às vezes bebo demasiados cafés (4-5). 
  2. Certas coisas que faço aparentemente são mesmo minhas. Por exemplo, escrevo certos e-mails de trabalho mais criativos e assertivos ou mensagens mais impulsivas e antes atribuía isso a estar meio tocado ou com a ressaca. Não é que seja mau, mas imaginava-me a ficar mais moderado e lacónico. Acho que quem consome álcool regularmente num espaço semi-funcional pode ficar convencido que certos atributos ou comportamentos são do álcool. Um exemplo: a beber podia adormecer a meio de um episódio dos Sopranos às 21:00. Mas sem beber também adormeço por essa hora. E mais ainda, o sono torna-se muito poderoso, tenho de me arrastar para a cama.
  3. Tive cravings fulminantes a semana passada, psicológicos. Regressei ao trabalho, dias intensos e deu-me o clássico craving a vir de carro cerca das 17h, a hora crítica, em que ponderei seriamente beber porque podia, não tinha ninguém em casa e tinha despachado o trabalho, estava feliz, mensagens de uma babe a pingar no whatsapp. Isto deixou-me um pouco desnorteado. Fiz o truque de play the tape forward. Ajudou muito estar entretido com piano ao serão, ter treinos no dia seguinte num chat febril com a tal pessoa - nao queria estar com os copos e entrar nesse chat sem total consciência.
  4. Continuo quase com o mesmo peso, não entendo bem porquê. Perdi 1.5kg (de 83 para 81.5) mas ainda longe do meu peso de corredor de 77kg, isto a treinar todos os dias. Se calhar ando a comer demasiados snacks feito guloso?
Continuo com vontade de continuar, mas há dias mais complicados, especialmente nas oscilações entre ter a minha filha e não ter, entre ter algo combinado e ser desmarcado ou entre ter muito trabalho e um alívio. Os momentos de descompressão - positivos - e estar sozinho depois de não estar criam quase sempre uma voz que diz "vá lá, já passaram xis dias, bebes hoje e amanhã, depois páras".

sábado, 3 de janeiro de 2026

"eu nunca bebo em casa sozinho, só bebo quando saio e passo dias sem beber" - socializar como camuflagem para manter um vício

 As pessoas que moderam por exemplo nas ocasiões (podem não beber alguns dias de seguida) são as mesmas que de vez em quando lhe dão bem, num casamento, jantar, festa, saída social, podem beber até ficarem com os copos ou um ligeiro buzz e no dia seguinte mega ressaca e ansiedade.

 Uma amiga próxima perguntou-me "então não bebes?" numa ocasião recente muito propícia a beber (em 8 pessoas, todas bebiam excepto eu). Disse-lhe que não. Ela insistiu em saber porquê e eu expliquei que até podia beber 1 copo ou 2 apenas sem problemas, mas já sei que dentro de 1 semana estou a beber demasiado todos os dias (já perdi a vergonha de dizer estas coisas a seja quem for, embora ainda tenha reservas em dizer quanto bebia diariamente).

Ela disse "eu nunca bebo em casa sozinha" como que a justificar-se. Eu não fiz qualquer comentário sobre ela, apenas falei de mim e admiti que na minha idade já não consigo ter um consumo dito moderado. E faz bem. É bom ter essas red lines como eu tinha a de nunca beber antes ou durante dias de trabalho ou não tocar em bebidas brancas etc. Embora sublinhe que essas redlines também têm o efeito de prolongar a zona cinzenta de que falo no post anterior e podermos ficar num limbo de dependência anos a fio. Também sei que ter essas redlines é igualmente um sinal de que o nosso consumo está a ser "travado" e fazemos um esforço consciente para não beber mais e sabemos que demais é demais. Começamos a colocar regras.

Eu já percebi há algum tempo que ela tem um problema: sempre que sai à noite - e sai todas as semanas - apanha uma valente carraspana e tem grande tolerância. Já saí com ela sóbrio e vi-a beber. Em 3h bebeu 2L de cervejas (o que é muito para uma mulher de baixa estatura) e depois bebeu mais cervejas a noite toda com grandes custos como ter de ir ao WC (era um concerto de rock) constantemente assim como para fazer fila para buscar mais uma cerveja.

E já percebi que uma das razões porque sai tanto e socializa tanto é porque precisa de beber. Já fui assim até fazer corta-mato e simplesmente beber em casa em segurança e mais barato. O mesmo vinho de 4 euros no supermercado pode custar 20 num restaurante. Uma cerveja também custa 3-4x mais num bar. Reparem que para alguém como ela quando chega a uma sexta ficar em casa significa sobriedade (ainda). Se tem privação vai ligar o sair com pessoas para um restaurante ou bar qualquer a poder consumir álcool. Para já, não é consciente. Ela tem cerca de 33 anos ainda, mas tem um estilo de vida parecido com alguém universitário. Pensa que o que a move para arranjar companhia é a companhia, mas isso é indissociável de ser a ocasião em que pode beber à vontade. E penso que uma parte dessa obsessão por ter sempre jantaradas, copos e festas aos fins de semana deriva do efeito do álcool. Não haja ilusões: a dopamina libertada por duas cervejas é dezenas de ordens de magnitude superior a qualquer estímulo natural como socializar. E a dopamina move a nossa motivação.

Conheço mais pessoas assim. Um amigo próximo que insistia em sair comigo para o Bairro Alto mesmo tendo já mais de 40 anos. Casado, não podia beber a sério em casa. Por isso regularmente combinava coisas para "sair". Depois da covid-19 começou a beber em casa e já se deixou do Bairro Alto. Há mais exemplos. Não estou a julgar porque eu fui e sou pior que todos estes amigos, acelerei o processo pelo qual estão a passar. Só vejo através das tangas que dizemos a nós próprios.

O passo seguinte ou presente que vão tentar é deixar de beber xis tempo como falo no post dry january. Eventualmente vão ter ocasiões em que o excesso e os efeitos se tornam demasiado evidentes. Por exemplo, chegam a uma sexta e não têm nenhum plano social. E pimbas, abrem a excepção de fazer uma festa para eles próprios em casa com uns vinhos ou cervejas ou whiskies. Internamente podem ter o mesmo discurso que eu tinha: "bem, é sexta, mereço, foi uma semana difícil" etc.

O caminho vai ser sempre o mesmo, apenas varia a velocidade. Estes padrões são visíveis à nossa volta O clássico do café local onde os homens bebem juntos todos os dias. O grupo de amigos que tem o ritual de uma almoçarada ou jantarada uma vez por semana, bem regada. O grupo de amigos como o que eu tive em que sempre que nos encontrávamos era para beber pesado a noite toda. Os colegas de trabalho que bebem um jarro de tinto ao almoço. 

A redline do não beber sozinho é de facto talvez uma das mais importantes. Passar essa redline abre mesmo as portas a um consumo muito mais ilimitado: não há juizo social, ninguém sabe. A questão que um consumidor 100% social deve colocar-se a si próprio é: seria capaz de sair à noite e socializar com os tais amigos sem consumir álcool? Ou para isso preferia ficar em casa? Se lhe dessem duas opções: sair à noite 100% sóbrio ou ficar em casa num sábado à noite, qual preferia? 

Vantagens de ter sido viciado em álcool ou drogas (not click bait)

 Sim, há vantagens. Por mais danos que tenham sido feitos, problemas de saúde, finanças, relações, enfim... o outro lado da moeda existe e não está ao alcance de quem não passou por isso. Há coisas boas em coisas aparentemente 100% más se as ultrapassarmos. Podia dizer coisas parecidas de experiências que nunca tive como sobreviver a um cancro, sobreviver a um colapso financeiro total, um mau divórcio, enfim, todas as experiências negativas, difíceis e existênciais que nos afectam, são oportunidades para dar um salto enorme em termos de consciência, espiritualidade, felicidade e resiliência. Isto não é teórico, abstracto, mas concreto, real.

  1. Passamos a estar conscientes e gratos por coisas tão simples como uma boa noite de sono, sentirmo-nos bem, sem ansiedade, sem escravidão da droga. O que os "normais" nunca se apercebem, para nós é precioso e melhor por contraste. E por isso temos uma hiper-experiência da vida. Eu experimento esta sensação nas ultramaratonas: a meio de uma prova, passado 20 horas, se posso comer uma canja de galinha quente às 5 da manhã no topo da serra da Freita, essa canja de galinha vai-me saber 1000x melhor que qualquer canja de galinha na rotina. Depois de uma prova, quando posso tomar um duche quente e dormir numa cama, estou estupefacto com o conforto, com o calor e lençóis macios. Até estar sentado numa cadeira me enche de gratidão. Quando saímos de um vício, as coisas que os outros dão por adquiridas para nós são uma fonte extraordinária de felicidade. Um nascer do sol de consciência tranquila, sem ressaca, culpa. Uma fonte inesgotável de autoestima por termos passado o adamastor da adição. Ninguém nos tira isso. Vejo o mesmo padrão em sobreviventes de doenças graves como cancro. É estranho ouvi-los dizer que estão gratos e que foi a melhor coisa que lhes aconteceu, mas alguns dizem-no e depois de passares por um problema de dependência percebes melhor o que significa. Nenhum nascer do sol passa a ser indiferente. A existência torna-se um milagre mais real e ficas mais consciente do valor de tudo.
  2. É como se tivessemos tido uma âncora, um lastro o tempo todo... Se conseguiste manter uma espécie de simulacro de vida, um emprego, relações familiares, se tinhas hobbies que eram prejudicados pelo álcool ou vontade de começar outros mas não era possível, assim que se retira o álcool é como se levantássemos vôo. Porque viver sob influência do álcool exige uma persistência e resiliência fora do comum. Temos de gerir todos os aspectos negativos, cansaço, névoa mental, desidratação, falta de sono. Vamos sobrevivendo dia após dia, sofrendo todos os efeitos negativos durante semanas, meses, anos, ou mesmo décadas. E de repente esse peso desaparece. Isso dá-nos uma força brutal. É como ter um muscle car americano de 600cv que está com o travão de mão engatado... deixar de beber é tirar esse travão de mão e de repente, voamos a 300kmh porque fomos forjados e treinados num mundo negro e hostil em que as coisas eram todas 20x mais difíceis por estarmos ou bebedos ou ressacados. Eu penso em parte que é por isso que nos períodos de sobriedade fico com uma espécie de aparente hiperactividade.
  3. Temos maior consciência das nossas fraquezas e falhas e isso torna-nos mais empáticos. Também somos mais independentes. O lado que toda gente tem de julgar os outros fica um pouco relativizado. Conhecemos melhor a psicologia humana e as hipocrisias, as mentiras, a começar pelas nossas. Para começar e peço desculpa pelo cliché, ficamos mais zen. Menos conflituosos e mais lúcidos. Oiçam ex-dependentes de álcool falar e detectam este padrão. Estão normalmente mais ancorados num nível de consciência e paz acima dos normais, mais imperturbáveis. 
  4. Passas a ser alguém diferente, independente. No caso do álcool isto é mais extremo porque o álcool é uma droga socialmente aceite, legal, generalizada. Se deixas de o consumir e o vês pelo que é (uma droga, conceptualmente igual a heroína) passas a viver num plano de realidade distinto das massas que o consomem como robots e se envenenam todos os dias. Saíste da norma, pensas pela tua cabeça e não te deixas levar por coisas más só porque toda gente ou quase toda a gente a faz. Contra tudo e todos, escolhes o teu caminho. Isto é uma experiência que podes aplicar em múltiplos campos.
  5. Não estamos na zona cinzenta que é a de muitos consumidores de álcool que não acordaram. Muita gente vai beber álcool toda a vida e sofrer com isso. Podes ter inveja dessas pessoas, mas se tens, não percebeste a fundo ainda o que é o álcool e dos seus efeitos, mesmo em quantidades ditas moderadas. Tens inveja de quem consegue consumir heroína sem foder a vida toda? Na biografia do Keith Richards está lá isto. Ele - como muitos - conseguiu consumir heroína muitos anos com muita cautela e controlo médico. Eventualmente teve de parar. E a heroína tem muito menos efeitos secundários do que o álcool. A heroína é cirúrgica, o álcool rebenta com tudo, todos os sistemas do corpo. Um só copo de vinho rebenta com uma noite de sono. Se consegues deixar de consumir álcool podes ter uma boa parte da tua vida, a segunda parte da tua vida, livre de um veneno tóxico cancerígeno e instigador de ansiedade que impede toda gente que o consome de ser mais feliz, saudável, forte. E só não se apercebem disso porque nunca pararam de beber. Beberam toda a vida e vão beber toda a vida. No que respeita aos ditos consumidores "moderados", conheces alguém que goste de beber bons vinhos, whiskys etc. que beba de forma "moderada"? Eu nunca conheci uma só pessoa assim. Só conheço pessoas que ou gostam de beber ou que não gostam ou ligam nenhuma... As únicas pessoas que vi beberem apenas 1 ou 2 copos de vinho numa ocasião como um jantar são pessoas que não querem saber do álcool por aí além e não retiram dele qualquer prazer especial. Vou fazer um post só sobre um perfil de pessoas que mascaram o vício com vida social, já a seguir.
  6.  Também conheço pessoas que bebem muito (ex: 1 jarro de litro logo ao almoço...) e vivem assim a vida toda. Muita tolerância, um consumo socialmente integrado, mas vão envenenar o corpo para o resto da vida e ter eventualmente problemas graves. Tu não, chegas ao fim dessa estrada a tempo de ir para outra para a segunda parte da tua vida.
  7. Um dia parece que estica em tempo. É impressionante a quantidade de tempo que o álcool rouba ao empurrar-nos para um estado de letargia em que fica tudo focado em beber, sendo irrelevante a atividade que se está a fazer. Um dos problemas do início da sobriedade é mesmo a questão do que fazer com esse tempo novo livre. Isto é algo que quem não passa por isto não está 100% consciente. Mas para nós, de repente um fim de semana tem 32h livres, um serão pode ter 5-6 horas livres. Que é preciso preencher. Podem dizer-me que isso não tem vantagem face a alguém que nunca bebeu ou quase não bebe, mas eu não vejo assim. Acho que o "choque" de de repente ter muito mais tempo vazio e sentir tédio gera uma consciência mais focada em ter de aproveitar o tempo e ativamente fazer algo que nos entretenha e valha a pena fazer como desporto, hobbies, trabalho, ler, escrever.
  8. Se consegues deixar um vício tão difícil de deixar ( posso argumentar porque o álcool é o mais difícil de todos) e fazer o que a vasta maioria das pessoas não consegue, consegues aplicar a mesma coisa a qualquer desafio pela frente.












Dry January (janeiro "seco") ou sober october


 Respondendo ao título e tendo em conta o público a que se dirige (o mainstream) eu respondo que sim. A peça depois desenvolve com especialistas a recomendar "um ano inteiro em vez de 1 mês". Isso é bonito, mas não é assim que pessoas não conscientes de qualquer problema com o álcool pensam. Dizer ao meu eu de há 10, 15 ou 20 anos "olha experimenta passar 1 ano sem beber" era completamente inútil. Ninguém vai fazer isso a não ser que esteja numa fase em que está consciente de estar viciado.

30 dias é um período bom para começar pelos seguintes motivos:

  •  Não é tão longo que dissuada (demasiado) pessoas curiosas para experimentar e pode evitar momentos que tendem a ser críticos para pessoas, como o verão, natal etc.
  • Apesar de curto (60 dias seria melhor...) já permite experimentar dias de recuperação, ao contrário de parar apenas 1 semana por exemplo, caso em que só se vive o pior da privação (insónias, sintomas de privação, tédio, ansiedade, etc.) Isto varia de pessoa para pessoa. Já tive ciclos em só recuperei o sono ao fim de 1 mês e pouco e outros em que passado uma semana (como este) estava a dormir aceitavelmente e bem ao fim de 2. 
  • Já permite começar a instalar certos hábitos (dizem que demora 21 dias a começar novos hábitos, acho esse número concreto um disparate total, mas sem dúvida que quanto mais tempo, mais um hábito se forma).
  • Já permite passar um leque alargado de gatilhos como fins de semana, uma ocasião social, um dia de trabalho, um jantar, um dia stressante, um dia feliz, um convívio com amigos etc. E permite passar a fase do kick da droga, os primeiros dias em que o gatilho é contínuo por privação.
  • Permite avaliar o quão viciados estamos e seguir a partir daí.
  • Se voltarmos a cair no vício depois dos 30 dias temos um termo de comparação. Alguém que bebe todos os dias durante 20 anos não tem noção de que o seu estado é "mau" de forma permanente. Só o contraste com uma fase de não bebida permite perceber a diferença enorme. Por exemplo, no post abaixo falo de ansiedade. Alguém que viva sempre com ansiedade pode ficar muito surpreendido por ao fim de 1 ou 2 semanas sem álcool ela ter-se evaporado e passar a acordar e adomrecer calmo e bem disposto.
Eu por precisei de múltiplas tentativas até conseguir fazer um mês completo. Fazia 4 ou 5 dias, ou fazia 3 semanas, ou fazia só 2 dias etc. Só ao fim de alguns ensaios é que fiz 30 dias. Mas à medida que ia tentando ia percebendo que era um problema pior do que pensava. Uso sempre a metáfora do teste de resistência de materiais. Para perceber a resistência de uma barra de ferro é preciso tentar dobrá-la até ela dobrar ou quebrar. A resistência é a força que foi necessária até ela ceder. Com um vício é idêntico. O vício do álcool - como não é considerado uma droga e é socialmente consumido de forma generalizada - pode ser completamente invisível. Aliás, se o consumo não for catastrófico e redundar em black outs e caos, também não tem consequências dramáticas para pessoas com o meu padrão de bebida ritualística diária ao final do dia. 

Só se torna visível quando há uma tentativa de abstinência. Ao contrário da tentativa de moderação, uma abstinência de pelo menos 30 dias dá um vislumbre do peso brutal do álcool na nossa vida e como nos sentimos melhor sem ele. Tentativas de moderação por outro lado resultam em efeitos que podem ser contraditórios, por exemplo, agravam a privação (não bebemos 1 noite) e no dia seguinte desistimos e vamos comprar álcool. No resultado é que passámos 1 noite em privação com insónias e ansiedade, e depois no dia seguinte pimbas, bebemos álcool e os sintomas desaparecem. Isso reforça um laço com o vício porque parece provar que não podemos viver sem ele. Um mês que seja já dá uma breve antevisão da tendência positiva que será interrompida se bebermos de novo.

Pelas minhas contas daqui até à minha ultramaratona terão passado 4 meses e meio. Conto nunca beber até lá. O meu recorde são 100 dias, se conseguir isto estarei 140 dias -150 dias sóbrio. O meu objetivo é fazer 1 ano. E não, não penso fazer 1 ano e depois beber. Mas também não consigo dizer nunca mais bebo. Nunca mais quero beber, isso sim. Mas remeto para o post anterior. O que eu penso agora não é muito relevante. Nunca estive assim tanto tempo sem álcool. O que quero mesmo experimentar é  experimentar 1 ano inteiro de recuperação. Como estará a minha mente? o meu estado de espírito? a minha fitness? A minha vida em geral? Isso não sei e estou curioso. Atualmente tenho um grande cepticismo quanto ao longo prazo porque já passei por isto antes e desiludi-me. Penso só que tenho de dar uma oportunidade. Em vez de um dry january o objetivo é um dry 2026.







A mente de um "drogado", ou como o teus pensamentos não são reais

A experiência de passar por uma dependência grave e superá-la tem benefícios também que não estão ao alcance das pessoas que nunca passaram por isso. Uma dos maiores é poder observar-me a mim mesmo em todos estados: um ciclo de vício em que bebia todos os dias e outro em que estou 100% sóbrio semanas, meses a fio. Sou a mesma pessoa, o mesmo "hardware", mas os pensamentos num estado e noutro são radicalmente diferentes. E dá-se o infeliz caso da consequência de beber álcool (mesmo para não viciados, que só apanham uma carraspana 1 vez de vez em quando) ser ter o espírito inundado de pensamentos negativos, depressivos, nascidos de ansiedade, cansaço, esgotamento, cortisol em níveis estratosféricos, stress.

O álcool e outras drogas têm um efeito 1000x mais poderoso no nosso estado de espírito e pensamentos do que qualquer outra coisa. Quando se é viciado, ficamos focados na droga. Quando essa necessidade é satisfeita, os problemas e a situação de vida dissolvem-se. Falando por mim, todos os stresses, problemas, preocupações, desapareciam ao primeiro copo. Ao fim de uma garrafa já estava teoricamente feliz e sem preocupações nenhumas, apenas "existia" (parcialmente). 

Óbvio que os problemas não desaparecem, apenas a nossa consciência deles. Isto no álcool é forte, mas não é tão evidente como noutra droga que uso como referência que é a heroína. Vemos o "agarrado" injetar-se, rolar os olhos para trás e frequentemente apenas parece adormecer num estado catatónico (lembrei-me agora do Christopher Moltissanti dos Sopranos ou o Jesse no Breaking Bad). A moca que apahavam parecia resumir-se a uma espécie de coma ou sesta, é o mesmo fenómeno do fentanyl nos EUA, ficam como zombies, letárgicos ou mesmo a dormir ferrados. E visto de fora parece a droga mais absurda de sempre: qual a diversão que pode existir se a forma de fruir a droga é literalmente ficar chapado num sofá. Com o álcool afinal de contas podemos pelo menos socializar - não me refiro a uma bebedeira completa que leva a um black out e colapso paralítico, ver um jogo de futebol... Mesmo alguém fortemente alcoolizado está pelo menos a falar muito, cantar karaoke, a dançar mal numa disco ou muito entusiasmado com alguma coisa.

Mas mesmo assim o princípio é exatamente o mesmo da heroína. 

Alguém que se injecta pode de facto colapsar numa cama ou sofá e ficar sem fazer rigorosamente nada. Mas quem bebe todos os dias também pode acabar num sofá a ver coisas parvas na TV ou no feed do telemóvel, é irrelevante. O tempo fica suspenso.

Nada mudou na situação de vida, o efeito químico do álcool a interagir connosco é que vai suscitar essa reação de euforia e depois anestesia, mas nada muda. Esse efeito ansiolítico é 1000x mais poderoso que conversa, reflexão ou mesmo resolver algum problema concreto. É químico, é um hack, um curto circuito a mecanismo do cérebro que não foram feitos para serem atingidos com uma bomba nuclear como o etanol.

E depois vem o efeito oposto, como um pêndulo. E é sobre esse feito oposto que quero falar porque é muito menos óbvio. Já percebi por amigos que por vezes têm forte ansiedade nos dias seguintes a uma noite de copos e nunca associam as duas coisas. Pensam que a ansiedade vem de um problema que têm na vida com o trabalho, contas, relações, carreira, o que for. Mas não associam essa ansiedade a uma bebedeira dois dias antes. 

O resultado de "pedir emprestado" esses momentos de relaxamento e euforia é pagar de volta com juros com os sintomas de privação que podem começar logo às 3 da manhã com uma insónia terrível, o coração a bater forte e uma ansiedade sem limites. Só que há um delay entre beber e sentir isto e o cérebro não associa uma coisa à outra. O cérebro valoriza mais o imediato. A consequência negativa não fica ligada ao consumo de álcool com a mesma força que o consumo e os efeitos. 

Quando fazemos isto meses, anos, vamos acumulando esse tilt brutal e que vai ter um efeito poderoso em múltiplas áreas da vida:

  • Vamos acumulando semanas, meses, anos, de privação crónica de sono reparador, perdemos capacidades cognitivas, regulação natural. O sono é o momento de recuperação. Sei por experiência muito próxima que boa parte do que eu sentia como ressacas (bem diferentes das ressacas de juventude de enjoo e dores de cabeça) era simplesmente privação de sono, porque já acordei da mesma forma sem ter bebido nada, apenas por ter dormido apenas 2 ou 3 horas. E reconheço a sensação. É igual a ficar 8h na cama depois de 2 garrafas de vinho.
  • Como bebemos calorias vazias comemos menos coisas boas, não absorvemos tão bem os nutrientes (ex: B12), o nosso sistema digestivo também fica danificado, o fígado não filtra nem metaboliza bem gordura porque está sempre em modo de emergência a livrar-se de álcool. No fim dos meus ciclos eu até saltava refeições, sóbrio a ansiedade tirava-me apetite e à noite se estivesse sozinho podia comer um snack e já está.
  • Temos a tensão elevada, respiração mais rápida durante o sono, coração a bater mais rápido, stress permanente.
  • Desidratação crónica.
  • Como se não bastassem os efeitos químicos no corpo, juntam-se efeitos práticos na nossa situação de vida: mais álcool significa menos tempo para tomar conta de nós, da casa, do trabalho, de obrigações, das relações pessoais. As coisas acumulam-se e temos cada vez mais coisas com que nos preocuparmos. Em casos mais extremos podemos ter problemas sérios como multas ou mesmo crime por conduzir com álcool - ainda mais extremo causarmos um acidente, magoarmos alguém. Perdemos coisas, a carteira, telemóvel, entramos em situações arriscadas, podemos ser despedidos. Tudo isto são problemas que vão somar-se à ansiedade de base que o álcool provoca, ou seja, começamos a ter problemas reais que não existiam apenas devido ao álcool.
Quando estamos imersos num ciclo de vício temos uma visão completamente irreal da nossa situação, da existência, da vida. Tendemos a sermos mais pessimistas, ansiosos. E isto tem efeito na própria força de vontade e clarividência que é preciso ter para dizer "basta" e fazer um dia 1, 2 , 3.... e começar a sobriedade. Porque é difícil acreditar que a vida pode ser boa, sem álcool. Do mesmo modo que há óculos "cor de rosa" também há óculos monocromáticos em que tudo parece mau, catastrófico, sem esperança.

Atenção, eu próprio estou céptico, apenas já sei que não devo agir com base no que penso, mas sim "agir" como se fosse uma pessoa feliz, um atleta, um bom profissional, um bom pai, o que for.
Nem que se finja como um actor no início. Porque também foi sempre essa a minha experiência. De novo, é algo químico. Temos de nos habituar e refazer. E com o tempo passa a ser o nosso novo normal. Recuperamos prazer em coisas que antes que eram soterradas no shot químico do álcool.

Eu noto isto em pessoas com depressão, algumas delas sem qualquer vício. Sabemos que se saíssem à rua e fossem correr 30 minutos ou andar à beira mar e apanhar um pouco de sol se sentiam melhor. Mas as pessoas com depressão vão dizer: "tenho uma depressão, não consigo"
E isto cria a mesma espiral que no álcool. Aliás, pelo que sei os antidepressivos são receitados para que as pessoas possam retomar uma vida mais normal em que conseguem sair da cama. Porque alguém que passa um dia inteiro na cama sem conseguir sair dela é óbvio que terá depressão. Precisa de funcionar, tomar banho, vestir-se, sair à rua, começar aos poucos a fazer uma vida normal.

Não é possível vencer este braço de ferro pelo poder da mente. Sou muito céptico quanto a psiquiatras e álcool, mas percebo perfeitamente porque é que no caso das depressões podem ajudar. É que numa depressão sem substâncias à mistura (como o álcool logo à cabeça) pode ser preciso alterar a "bioquímica" do cérebro para dar um empurrão e tirar a pessoa da espiral destrutiva. No caso de pessoas com um problema de dependência de álcool é a própria substância do álcool que produz o estado "depressivo", pelo que a solução será eliminá-la. Ao eliminar esse fator e com o passar dos dias, especialmente a partir do momento em que o sono começa a estabilizar e a ser reparador, o estado de espírito melhora.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Tapering para deixar de beber álcool e porque acho péssima ideia

 Tapering significa ir reduzindo a quantidade de álcool ao longo do tempo até parar. Escrevo isto porque hoje ouvi mais um podcast do excelente Kohdi Rayne do Beyond Sobber que vende programas de deixar de beber e faz coaching, para além de ter toneladas de conteúdos gratuitos de excelente qualidade. Contudo, há coisas que ele diz com que discordo e não sei mesmo se ele não as diz para vender mais coaching, uma vez que diz que consegue meter viciados em álcool a beber cada vez menos até pararem (ou apenas reduzirem).

Vou explicar porque acho um erro, mas primeiro, o óbvio aviso de que o álcool é a única (ou das únicas) drogas de que se pode morrer pelos sintomas de privação. Isto só acontece em casos extremos, mas que precisam de supervisão médica e penso que para compensar o que é administrado são benzodiazepinas. Por isso claro que há uma razão médica que assusta pessoas que bebem pois têm medo de morrer ou ter sintomas de privação terríveis, delirium tremens e coisas do género. Como dizem os americanos, consult your phisician. No meu caso, nem com 3 garrafas de vinho por dia 1 mês a fio chego a ter sequer tremores por aí além e a privação resume-se a uma ansiedade brutal nos primeiros 2-3 dias, suores noturnos, pesadelos, insónias. Nunca senti nada próximo de perigo e creio ser o caso da vasta maioria de quem é viciado em álcool. Outra questão são casos como o próprio Kohdi que bebia 1.5L de vodka por dia (2 garrafas) e bebeu durante anos e anos todos os dias até um colapso do fígado e hospitalização quando parou de beber (o coração dele parou e demorou mais de 1 ano até voltar a andar e mexer-se normalmente).

Voltando ao tema do tapering. Acho que não resulta por vários motivos que vou apresentar em bullets:

  • Já tentei reduzir e moderar. Penso que todas as pessoas que têm um problema com álcool e reconhecem que estão a abusar começam precisamente por tentar isto. E nunca conseguem.
  • O álcool é uma droga altamente viciante. Se alguém tem um problema com álcool, a exposição à droga viciante vai sempre provocar vontade de consumir mais. E quem bebe 2 garrafas por dia não tem interesse em beber 1 ou meia garrafa. Quer beber 2 ou mais. É o nível dessa pessoa. A dose. Menos que isso causa sintomas de privação. Ora, o álcool tem o condão de afectar a capacidade de tomar decisões (isto não acontece com tabaco por exemplo). Se alguém já tem uma pulsão para beber, depois de uns shots de vodka não me conseguem convencer que essa pessoa vai ter clareza de espírito para parar a meio quando já está tocada. 
  • Mesmo que essa pessoa se submeta à tortura de beber menos que o que lhe apetece beber de forma sistemática ao longo do tempo (semanas, meses, até parar), isso só vai reforçar a importância mágica da droga álcool. Eu imagino que seria para mim tentar beber 3 copos de vinho por dia em vez de 15. Contaria as horas até poder beber os meus 3 copos mágicos. Em vez de ter absoluto NOJO de álcool, era colocá-lo num pedestal e parar de beber com a sensação de que queria mais. Eu sempre que parei fiz o oposto. Fui para vinhos baratos nojentos, especialmente vinhos brancos, para os beber QUENTES. O sabor e o cheiro davam-me náuseas. Por vezes na bebedeira depois de 2 garrafas e meia saía para comprar uma 4a garrafa. Sempre que fiz isto com muito raras excepções nunca toquei na 4a garrafa. Tinha só medo de querer mais depois da 3a e não ter. Mas era o meu limite físico. A partir daí queria ir para a cama e dar o dia por terminado. A melhor posição para se deixar de beber é ter um asco total ao álcool. Isto não é suficiente para parar, mas ajuda bastante. O grande Alan Carr fala nisto, truques como fumar outras marcas de tabaco nojento em vez do habitual e no fim de beber, antes de parar, escolher um álcool que detestamos absolutamente (uma das minhas tentativas foi feita com vodka quente sem gelo e sem nada, não bebi durante meses depois disso.)
  • Mesmo que em teoria - em TEORIA - alguém que bebe quantidades enormes conseguisse só beber 2 copos e se habituasse a isso... por que razão essa pessoa iria parar? Se já consegue de facto moderar ao ponto de ter um consumo supostamente seguro e socialmente normal, por que raio iria deixar de beber esses 2 copos? Nesse cenário (que acho altamente improvável) essa pessoa não iria ficar parada nos 2 copos...  os 2 copos um dia voltavam a ser 2 ou 3 garrafas.
  • Mesmo um copo apenas fode o sono todo. Acredito que parte da recuperação está também em sentirmo-nos bem por contraste ao inferno da droga e dormir bem é crucial. Perpetuar uma situação cinzenta impede de chegar a um ponto de recuperação ativa mais forte. É apenas menos veneno, mas é veneno na mesma. 
  • Queremos despedir-nos da droga com convicção de que é uma droga viciante e destrutiva. Não queremos guardar na memória que houve uma ou duas semanas em que até reduzimos para 2 ou 3 copos, um consumo "normal" ou seja o que for. É essa última memória que fica. Assim perante um trigger, a pessoa que passou dias e semanas ou meses a "reduzir" até parar, tem memória que conseguiu "controlar" e assim é capaz de aceitar a bebida que lhe oferecem depois de meses sóbrio... E trau, volta à estaca zero.

Para lá de contar os dias: superar os gatilhos

 Há sempre um debate sobre se se deve contar os dias de sobriedade ou não. Ambos os campos têm bons argumentos. Eu vejo vantagens em contar dias porque torna tangível o progresso e ajuda a motivar no início. Naturalmente, deixamos de contar os dias um a um ao fim de um tempo. Pela minha experiência, ao fim de cerca de dois meses acontece-me passarem dias sem me lembrar que deixei de beber e depois é que vou ao calendário na parede deixar lá cruzes. Mas aquilo em que me quero focar neste texto é na importância de superar triggers específicos vs contar dias.

Começo pelo exemplo extremo do rehab. Se alguém é internado num centro desses como nos filmes americanos e fica fechado 30 dias numa clínica onde não há álcool e passa os dias preenchidos com atividades e um contexto completamente distinto da sua rotina e vida real, não está a ser sujeito à tentação e oportunidade de beber. Não quero ser taxativo com isto e percebo a importância que tem para garantir 30 dias (ou mais ou menos) de sobriedade. É como ir para a prisão ou uma ilha deserta. 

O verdadeiro teste acontece quando a pessoa volta para casa e para a vida real. No meu entender, é nesse mundo real que se faz o verdadeiro progresso. O Chatgpt diz-me que 70-80% dos frequentadores de clínicas de rehab têm um relapso nos primeiros 12 meses depois de saírem de uma clínica...

Já abordei isto anteriormente, mas volto a reforçar. Quando paramos de beber num dado momento vamos ser expostos a todos os contextos e ocasiões em que antes iríamos beber. Os primeiros são tudo o que é rotina. No meu caso seria um dia típico: vou trabalhar, volto para casa, são 17h-18h e dá-me o craving enorme de querer relaxar ao fim de um dia normal. O que é excelente na rotina é que somos expostos a ela constantemente. Portanto se superamos um final de dia e eventualmente fins de semana normais sem álcool, vamos ganhando novas experiências em que provamos a nós próprios que não acontece nada de mal, pelo contrário, em não beber num serão ou fim de semana normal. Ficamos felizes por ir para a cama sóbrios e acordar revigorados por uma boa noite de sono.

Há idiotas - é o termo - de supostos experts que aconselham a evitar os gatilhos e até mudar o percurso casa-trabalho para não passar por aquela mercearia ou supermercado onde comprávamos o álcool. Isto é completamente errado. Porque é precisamente nos primeiros dias que a nossa motivação para deixar de beber está no máximo, visto que estamos mais próximos do inferno que foi o último período de consumo. É melhor enfrentar o touro pelos cornos. Eu vou logo à secção dos vinhos dos supermercados e retiro prazer de tirar um six pack de heiken zero. Neste atual período tive de conviver com as celebrações do Natal: festa no trabalho, jantar e almoços de natal, com álcool de borla e disponível por todo lado, incluindo no caso de um jantar um empregado de mesa que insistiu umas 5 vezes para me encher o copo, ao ponto de eu ter de retirar o copo da minha frente.

Estes gatilhos sucedem-se e de cada vez que vivemos uma situação particular como um jantar, uma festa, uma tarde de tédio, um dia de muito stress, um dia de euforia, uma psicina ao sol com possibilidade de uma margarita ou gin tónico, férias, um aeroporto, uma viagem, um hotel, etc. etc. estamos perante um novo desafio.

Eu tive total consciência que se viver numa rotina total consigo não beber para sempre. Só que não é possível ou desejável viver assim. Posso ter resolvido solidão, tédio, stress, etc. mas depois há contextos muito específicos que são raros. No post anterior falei nos dates. Terei de superar dates sóbrio. Outro gatilho de que me lembrei é completar uma ultramaratona. Tenho uma daquei a uns meses, uma das mais difíceis de Portugal. Tenho de treinar como um doido para ter uma chance de a terminar e sei que isso é um alicerce da minha sobriedade atual (tenho treinos todos os dias). Mas também sei pela experiência passada que depois de completar uma prova tenho uma descompressão gigante em que faço uma pausa nos treinos e penso "bom, agora posso beber umas semanas, mereço". Esse será um teste muito relevante. Preciso de passar pela experiência de descompressão após um período de treinos extremo e de uma prova extrema (no caso 170kms , 9000m) sem resvalar para o álcool. 

O meu ponto é que todos teremos estes contextos e precisamos de os processar. O progresso só sucede em situações em que temos vontade de beber e não bebemos. Estar apenas "isolado" dessas situações, especialmente se for de propósito como defendem alguns gurus (não o Allan Carr que é o melhor deles todos!) é assumir que a nossa decisão não é suficientemente forte. Por exemplo, sei que a minha melhor abordagem para o caso dos dates não é evitá-los. É sim ter dates sóbrio: mesmo que corram mal, tenho de ser exposto a todo o tipo de triggers. Claro que há alguns que se pode e deve evitar: há coisas que só são toleráveis para mim com álcool. Por exemplo, tenho zero vontade de ir a uma discoteca até às tantas. Zero. É algo de que estou totalmente disposto a abdicar. Há outros contextos do género que só existem pelo álcool. Tinha um grupo de amigos há mais de 10 anos em que só bebíamos mesmo MUITO pela zona de alfama. Eu gostava deles e a coisa não se resumia a álcool, mas mesmo na altura deixei de sair com eles e ir a jantar com eles, em parte porque fui pai solteiro e não podia, mas também em parte porque com eles bebia mesmo muito vinho e bagaços e deitava-me às 5 da manhã em dias de semana em que tinha de trabalhar. Esse é um exemplo de contexto em que o álcool era absolutamente crítico. Deixar de beber pode significar sair de certos contextos que funcionavam apenas como ocasiões de apanhar uma bebedeira épica.

Outros contextos são bons. Um casamento ou Natal podem ser gatinhos fortes, mas são ocasiões boas, positivas. Umas férias, um jantar com amigos, um date. Não podemos deixar de viver. Se uma ocasião for intolerável ou aborrecida sem álcool, é porque provavelmente a ocasião é má, ponto.

Voltando ao título do post, isto significa que não é mau ter gatilhos e ocasiões em que pensamos em álcool e ele surge como uma solução, se conseguirmos não beber. Muitas vezes o resultado é que as coisas até correm bem e são melhores. Na rotina - que é o que eu mais exploro como qualquer ser humano, visto ser "rotina" - isto é completamente evidente. Depois de um período inicial de quase pânico com "oh meu Deus, o que vou fazer este serão sozinho, é impossível não beber!! como é que vou aguentar!" passo para uma existência em que estou eufórico por poder estudar piano, ver um bom filme ou série, estar presente com a minha filha e por aí fora. E sucede algo mágico: fico com um sono intenso (acordo às 5 da manhã todos os dias pelo menos) aí pelas 21h o que me leva a deitar-me cedo e adormecer em segundos para uma noite de sono pacífica e reconfortante. Adoro a cama agora, a minha almofada, adoro dormir. Os fins de semana são a segunda ocasião mais comum e implicam dois dias inteiros vazios. No início parece uma extensão de tempo infinita e intolerável. Ao fim de uma semanas estou a treinar, tocar piano, pescar, socializar, escrever, arrumar, cozinhar, ver grandes filmes, etc. etc. O tempo às tantas até parece curto.

Suspeito que a única razão pela qual encaixo bem essa rotina dos dias da semana e os fins de semana é porque sou logo exposto a eles desde o dia 1 praticamente. O complexo até são fins de semana porque são mais ocasionais, podemos ter 10 dias sóbrios e apenas 1 sábado e domingo lá metidos. Tenho a certeza que se tivesse 1 date sóbrio por dia, um jantar de natal todas as semanas etc. também poderia acelerar depressa para uma existência em que teria superado essas ocasiões. 

E depois há ocasiões novas, inesperadas. Essas não sei quais são. Os experts por vezes são atingidos por um súbito craving do nada mesmo depois de meses sem beber, anos. Já me aconteceu ter relapsos ao fim de meses sem ter um motivo muito definido. Talvez a experiência também passe pela resiliência face a gatilhos do nada ou sem situações novas, que não conseguimos antecipar. 

Em conclusão, se há uma ocasião previsível em que é possível que sejamos expostos à vontade de beber, a minha filosofia será decidir que não vou beber e enfrentá-la. Se sinto que é provável que beba (ou mesmo certo), então devo evitar a situação sim. Quero deixar claro que 95% dos meus relapsos aconteceram em situações em que eu sabia que ia beber. Nunca fui para um date ou, quando namorava, para celebrações de natal, páscoa ou férias de verão com a família de namorada, convicto de que não ia beber e depois não resistia. Pelo contário: sabia que ia beber e até o anunciava. Tinha a convicção de que não poderia resistir nem queria. Hoje tenho outra perspetiva. Na mesma situação iria na mesma mas não bebia. Porque a alternativa de não ir para algo positivo como um convívio com pessoas que adorava porque não podia beber era demasiado deprimente. E porque era admitir que a minha determinação em não beber era falsa e fraca. É enfrentar o touro pelos cornos.









Deixar álcool, nicotina e caféina ao mesmo tempo - vantagens

Não encontro conteúdos relevantes no youtube sobre esta experiência. Destas 3 drogas a que destoa é a cafeína, visto que mesmo ex-dependente...