As pessoas que moderam por exemplo nas ocasiões (podem não beber alguns dias de seguida) são as mesmas que de vez em quando lhe dão bem, num casamento, jantar, festa, saída social, podem beber até ficarem com os copos ou um ligeiro buzz e no dia seguinte mega ressaca e ansiedade.
Uma amiga próxima perguntou-me "então não bebes?" numa ocasião recente muito propícia a beber (em 8 pessoas, todas bebiam excepto eu). Disse-lhe que não. Ela insistiu em saber porquê e eu expliquei que até podia beber 1 copo ou 2 apenas sem problemas, mas já sei que dentro de 1 semana estou a beber demasiado todos os dias (já perdi a vergonha de dizer estas coisas a seja quem for, embora ainda tenha reservas em dizer quanto bebia diariamente).
Ela disse "eu nunca bebo em casa sozinha" como que a justificar-se. Eu não fiz qualquer comentário sobre ela, apenas falei de mim e admiti que na minha idade já não consigo ter um consumo dito moderado. E faz bem. É bom ter essas red lines como eu tinha a de nunca beber antes ou durante dias de trabalho ou não tocar em bebidas brancas etc. Embora sublinhe que essas redlines também têm o efeito de prolongar a zona cinzenta de que falo no post anterior e podermos ficar num limbo de dependência anos a fio. Também sei que ter essas redlines é igualmente um sinal de que o nosso consumo está a ser "travado" e fazemos um esforço consciente para não beber mais e sabemos que demais é demais. Começamos a colocar regras.
Eu já percebi há algum tempo que ela tem um problema: sempre que sai à noite - e sai todas as semanas - apanha uma valente carraspana e tem grande tolerância. Já saí com ela sóbrio e vi-a beber. Em 3h bebeu 2L de cervejas (o que é muito para uma mulher de baixa estatura) e depois bebeu mais cervejas a noite toda com grandes custos como ter de ir ao WC (era um concerto de rock) constantemente assim como para fazer fila para buscar mais uma cerveja.
E já percebi que uma das razões porque sai tanto e socializa tanto é porque precisa de beber. Já fui assim até fazer corta-mato e simplesmente beber em casa em segurança e mais barato. O mesmo vinho de 4 euros no supermercado pode custar 20 num restaurante. Uma cerveja também custa 3-4x mais num bar. Reparem que para alguém como ela quando chega a uma sexta ficar em casa significa sobriedade (ainda). Se tem privação vai ligar o sair com pessoas para um restaurante ou bar qualquer a poder consumir álcool. Para já, não é consciente. Ela tem cerca de 33 anos ainda, mas tem um estilo de vida parecido com alguém universitário. Pensa que o que a move para arranjar companhia é a companhia, mas isso é indissociável de ser a ocasião em que pode beber à vontade. E penso que uma parte dessa obsessão por ter sempre jantaradas, copos e festas aos fins de semana deriva do efeito do álcool. Não haja ilusões: a dopamina libertada por duas cervejas é dezenas de ordens de magnitude superior a qualquer estímulo natural como socializar. E a dopamina move a nossa motivação.
Conheço mais pessoas assim. Um amigo próximo que insistia em sair comigo para o Bairro Alto mesmo tendo já mais de 40 anos. Casado, não podia beber a sério em casa. Por isso regularmente combinava coisas para "sair". Depois da covid-19 começou a beber em casa e já se deixou do Bairro Alto. Há mais exemplos. Não estou a julgar porque eu fui e sou pior que todos estes amigos, acelerei o processo pelo qual estão a passar. Só vejo através das tangas que dizemos a nós próprios.
O passo seguinte ou presente que vão tentar é deixar de beber xis tempo como falo no post dry january. Eventualmente vão ter ocasiões em que o excesso e os efeitos se tornam demasiado evidentes. Por exemplo, chegam a uma sexta e não têm nenhum plano social. E pimbas, abrem a excepção de fazer uma festa para eles próprios em casa com uns vinhos ou cervejas ou whiskies. Internamente podem ter o mesmo discurso que eu tinha: "bem, é sexta, mereço, foi uma semana difícil" etc.
O caminho vai ser sempre o mesmo, apenas varia a velocidade. Estes padrões são visíveis à nossa volta O clássico do café local onde os homens bebem juntos todos os dias. O grupo de amigos que tem o ritual de uma almoçarada ou jantarada uma vez por semana, bem regada. O grupo de amigos como o que eu tive em que sempre que nos encontrávamos era para beber pesado a noite toda. Os colegas de trabalho que bebem um jarro de tinto ao almoço.
A redline do não beber sozinho é de facto talvez uma das mais importantes. Passar essa redline abre mesmo as portas a um consumo muito mais ilimitado: não há juizo social, ninguém sabe. A questão que um consumidor 100% social deve colocar-se a si próprio é: seria capaz de sair à noite e socializar com os tais amigos sem consumir álcool? Ou para isso preferia ficar em casa? Se lhe dessem duas opções: sair à noite 100% sóbrio ou ficar em casa num sábado à noite, qual preferia?
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