quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Para lá de contar os dias: superar os gatilhos

 Há sempre um debate sobre se se deve contar os dias de sobriedade ou não. Ambos os campos têm bons argumentos. Eu vejo vantagens em contar dias porque torna tangível o progresso e ajuda a motivar no início. Naturalmente, deixamos de contar os dias um a um ao fim de um tempo. Pela minha experiência, ao fim de cerca de dois meses acontece-me passarem dias sem me lembrar que deixei de beber e depois é que vou ao calendário na parede deixar lá cruzes. Mas aquilo em que me quero focar neste texto é na importância de superar triggers específicos vs contar dias.

Começo pelo exemplo extremo do rehab. Se alguém é internado num centro desses como nos filmes americanos e fica fechado 30 dias numa clínica onde não há álcool e passa os dias preenchidos com atividades e um contexto completamente distinto da sua rotina e vida real, não está a ser sujeito à tentação e oportunidade de beber. Não quero ser taxativo com isto e percebo a importância que tem para garantir 30 dias (ou mais ou menos) de sobriedade. É como ir para a prisão ou uma ilha deserta. 

O verdadeiro teste acontece quando a pessoa volta para casa e para a vida real. No meu entender, é nesse mundo real que se faz o verdadeiro progresso. O Chatgpt diz-me que 70-80% dos frequentadores de clínicas de rehab têm um relapso nos primeiros 12 meses depois de saírem de uma clínica...

Já abordei isto anteriormente, mas volto a reforçar. Quando paramos de beber num dado momento vamos ser expostos a todos os contextos e ocasiões em que antes iríamos beber. Os primeiros são tudo o que é rotina. No meu caso seria um dia típico: vou trabalhar, volto para casa, são 17h-18h e dá-me o craving enorme de querer relaxar ao fim de um dia normal. O que é excelente na rotina é que somos expostos a ela constantemente. Portanto se superamos um final de dia e eventualmente fins de semana normais sem álcool, vamos ganhando novas experiências em que provamos a nós próprios que não acontece nada de mal, pelo contrário, em não beber num serão ou fim de semana normal. Ficamos felizes por ir para a cama sóbrios e acordar revigorados por uma boa noite de sono.

Há idiotas - é o termo - de supostos experts que aconselham a evitar os gatilhos e até mudar o percurso casa-trabalho para não passar por aquela mercearia ou supermercado onde comprávamos o álcool. Isto é completamente errado. Porque é precisamente nos primeiros dias que a nossa motivação para deixar de beber está no máximo, visto que estamos mais próximos do inferno que foi o último período de consumo. É melhor enfrentar o touro pelos cornos. Eu vou logo à secção dos vinhos dos supermercados e retiro prazer de tirar um six pack de heiken zero. Neste atual período tive de conviver com as celebrações do Natal: festa no trabalho, jantar e almoços de natal, com álcool de borla e disponível por todo lado, incluindo no caso de um jantar um empregado de mesa que insistiu umas 5 vezes para me encher o copo, ao ponto de eu ter de retirar o copo da minha frente.

Estes gatilhos sucedem-se e de cada vez que vivemos uma situação particular como um jantar, uma festa, uma tarde de tédio, um dia de muito stress, um dia de euforia, uma psicina ao sol com possibilidade de uma margarita ou gin tónico, férias, um aeroporto, uma viagem, um hotel, etc. etc. estamos perante um novo desafio.

Eu tive total consciência que se viver numa rotina total consigo não beber para sempre. Só que não é possível ou desejável viver assim. Posso ter resolvido solidão, tédio, stress, etc. mas depois há contextos muito específicos que são raros. No post anterior falei nos dates. Terei de superar dates sóbrio. Outro gatilho de que me lembrei é completar uma ultramaratona. Tenho uma daquei a uns meses, uma das mais difíceis de Portugal. Tenho de treinar como um doido para ter uma chance de a terminar e sei que isso é um alicerce da minha sobriedade atual (tenho treinos todos os dias). Mas também sei pela experiência passada que depois de completar uma prova tenho uma descompressão gigante em que faço uma pausa nos treinos e penso "bom, agora posso beber umas semanas, mereço". Esse será um teste muito relevante. Preciso de passar pela experiência de descompressão após um período de treinos extremo e de uma prova extrema (no caso 170kms , 9000m) sem resvalar para o álcool. 

O meu ponto é que todos teremos estes contextos e precisamos de os processar. O progresso só sucede em situações em que temos vontade de beber e não bebemos. Estar apenas "isolado" dessas situações, especialmente se for de propósito como defendem alguns gurus (não o Allan Carr que é o melhor deles todos!) é assumir que a nossa decisão não é suficientemente forte. Por exemplo, sei que a minha melhor abordagem para o caso dos dates não é evitá-los. É sim ter dates sóbrio: mesmo que corram mal, tenho de ser exposto a todo o tipo de triggers. Claro que há alguns que se pode e deve evitar: há coisas que só são toleráveis para mim com álcool. Por exemplo, tenho zero vontade de ir a uma discoteca até às tantas. Zero. É algo de que estou totalmente disposto a abdicar. Há outros contextos do género que só existem pelo álcool. Tinha um grupo de amigos há mais de 10 anos em que só bebíamos mesmo MUITO pela zona de alfama. Eu gostava deles e a coisa não se resumia a álcool, mas mesmo na altura deixei de sair com eles e ir a jantar com eles, em parte porque fui pai solteiro e não podia, mas também em parte porque com eles bebia mesmo muito vinho e bagaços e deitava-me às 5 da manhã em dias de semana em que tinha de trabalhar. Esse é um exemplo de contexto em que o álcool era absolutamente crítico. Deixar de beber pode significar sair de certos contextos que funcionavam apenas como ocasiões de apanhar uma bebedeira épica.

Outros contextos são bons. Um casamento ou Natal podem ser gatinhos fortes, mas são ocasiões boas, positivas. Umas férias, um jantar com amigos, um date. Não podemos deixar de viver. Se uma ocasião for intolerável ou aborrecida sem álcool, é porque provavelmente a ocasião é má, ponto.

Voltando ao título do post, isto significa que não é mau ter gatilhos e ocasiões em que pensamos em álcool e ele surge como uma solução, se conseguirmos não beber. Muitas vezes o resultado é que as coisas até correm bem e são melhores. Na rotina - que é o que eu mais exploro como qualquer ser humano, visto ser "rotina" - isto é completamente evidente. Depois de um período inicial de quase pânico com "oh meu Deus, o que vou fazer este serão sozinho, é impossível não beber!! como é que vou aguentar!" passo para uma existência em que estou eufórico por poder estudar piano, ver um bom filme ou série, estar presente com a minha filha e por aí fora. E sucede algo mágico: fico com um sono intenso (acordo às 5 da manhã todos os dias pelo menos) aí pelas 21h o que me leva a deitar-me cedo e adormecer em segundos para uma noite de sono pacífica e reconfortante. Adoro a cama agora, a minha almofada, adoro dormir. Os fins de semana são a segunda ocasião mais comum e implicam dois dias inteiros vazios. No início parece uma extensão de tempo infinita e intolerável. Ao fim de uma semanas estou a treinar, tocar piano, pescar, socializar, escrever, arrumar, cozinhar, ver grandes filmes, etc. etc. O tempo às tantas até parece curto.

Suspeito que a única razão pela qual encaixo bem essa rotina dos dias da semana e os fins de semana é porque sou logo exposto a eles desde o dia 1 praticamente. O complexo até são fins de semana porque são mais ocasionais, podemos ter 10 dias sóbrios e apenas 1 sábado e domingo lá metidos. Tenho a certeza que se tivesse 1 date sóbrio por dia, um jantar de natal todas as semanas etc. também poderia acelerar depressa para uma existência em que teria superado essas ocasiões. 

E depois há ocasiões novas, inesperadas. Essas não sei quais são. Os experts por vezes são atingidos por um súbito craving do nada mesmo depois de meses sem beber, anos. Já me aconteceu ter relapsos ao fim de meses sem ter um motivo muito definido. Talvez a experiência também passe pela resiliência face a gatilhos do nada ou sem situações novas, que não conseguimos antecipar. 

Em conclusão, se há uma ocasião previsível em que é possível que sejamos expostos à vontade de beber, a minha filosofia será decidir que não vou beber e enfrentá-la. Se sinto que é provável que beba (ou mesmo certo), então devo evitar a situação sim. Quero deixar claro que 95% dos meus relapsos aconteceram em situações em que eu sabia que ia beber. Nunca fui para um date ou, quando namorava, para celebrações de natal, páscoa ou férias de verão com a família de namorada, convicto de que não ia beber e depois não resistia. Pelo contário: sabia que ia beber e até o anunciava. Tinha a convicção de que não poderia resistir nem queria. Hoje tenho outra perspetiva. Na mesma situação iria na mesma mas não bebia. Porque a alternativa de não ir para algo positivo como um convívio com pessoas que adorava porque não podia beber era demasiado deprimente. E porque era admitir que a minha determinação em não beber era falsa e fraca. É enfrentar o touro pelos cornos.









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