Muita gente tem um cinismo exagerado vs. livros de autoajuda. Eu consumo muitos. Hoje em dia em formato audiobook, durante longas horas de treino de corrida ou condução. Considero que há um fenómeno parecido com o dos filmes de terror. A maior parte são maus, mas os bons valem a pena. Mesmo dentro dos livros que não são espectaculares, há algumas pérolas ou conceitos que acabam por ser úteis ou reveladores e não apenas a confirmação de bom senso que já tínhamos.
A série de livros Unfuck Yourself de Gary Bishop é um bom exemplo. Tem um conceito que achei algo revelador: a tendência para a autosabotagem quando tudo está a correr bem e como essa autosabotagem nasce de uma crença subconsciente de que não merecemos o que de bom está a acontecer. Um pessimismo que precisa de ser materializado.
Bishop não aborda de forma especializada o tema de drogas (que me lembre) mas penso que a teoria se aplica de forma muito directa ao meu padrão.
Estou saturado de ouvir coaches e experts de alcool constantemente a colocar a tónica nos traumas, nos maus acontecimentos da vida, nos problemas, nas depressões e por aí fora como causas de relapsos no consumo. O que observo em mim e em muitos outros é uma desconexão completa entre os dois e às vezes exatamente o oposto, como é o meu caso: bons momentos, a vida correr-me muito bem, situações felizes e sociais (estar com bons amigos), românticas (um primeiro date), sucesso no trabalho (um dia que correu muito bem) ou desporto (ex: acabar uma ultramaratona depois de meses de treino) são gatilhos muito mais fortes que maus acontecimentos. Sei que isto não é exclusivo de mim, já o escrevi aqui, mais pessoas que lidam com a droga álcool relatam o mesmo e destroem o cliché simplista de que se trata de "automedicação".
Numa primeira análise eu pensei - e ainda penso que é um factor - que nessas ocasiões ou sensação positiva há um factor de ânsia por amplificar a sensação boa e que o mereço. Isto resume-se a este diálogo mental: "mereces, estiveste bem, tens estado bem, está tudo bem, vamos festejar, tens tudo sobre controlo, olha para ti, you rock, qual é o problema de bebermos hoje e esta semana, depois páras de novo, agora aproveita o momento, saboreia"
Quando ouvi o Gary Bishop falar na questão da autosabotagem acendeu-se-me uma luz no tablier. Se admitir que não sou completamente estúpido, a nível racional e também subconsciente eu tenho de saber que se as coisas me estão a correr bem num ou vários domínios, beber álcool vai iniciar um ciclo de consumo diário e um retrocesso inevitável. Desta panóplia de circunstâncias apenas identifico os dates como a única situação em que a droga tem um benefício real (lamento, mas tem). Nas outras não tem. Mas mesmo na questão dos dates há o tema da autosabotagem. A verdade é que quando atravesso um período sóbrio a minha capacidade de atração se multiplica por 10. Nunca o consegui explicar inteiramente (podia falar de energias), mas pode ter a ver com a autoconfiança, o meu aspecto físico ou fazer mais coisas interessantes.
Em qualquer caso, é possível que esse impulso de consumir álcool quando tudo me está a correr pelo menos muito melhor do que quando bebo, se deva a eu não achar que mereço. Que tenho um ceticismo face ao bom. Um: "ok, eu consigo parar 2-3 meses, mas vá lá meu, achas mesmo que vais ser uma dessas pessoas que deixa de consumir álcool um ano? Ou para sempre?" Não sei se isto é um factor. Eu não o noto de forma consciente. Apenas penso que é credível que o seja. Apesar de ter vontade de melhorar em múltiplas áreas e até me considerar optimista, posso ter algures um fatalismo e falta de autoestima que me faz detonar as coisas que estão a correr bem.
Se nao tenho 100% de certeza disto ser um fator relevante, tenho a certeza que outro é o medo de perder a minha identidade. Se beber é um ritual diário durante décadas, é óbvio que se torna um sítio familiar. Deixar isso de vez, sem autosabotagem, significa algo desconhecido e potencialmente assustador. Esse factor eu tenho a certeza que tem impacto. Penso que os dois estão ligados. É um "tu sabes quem és, não és esta pessoa que deixa um vício para trás de vez, quem é que estás a enganar, eu e tu sabemos".
Talvez aí sim, resida a questão do "trauma de infância"? É indiferente em termos práticos. Mas é evidente que há algo de autosabotagem em que acabamos por fuck ourselves quando temos tudo na mão, como que para confirmar as nossas previsões mais pessimistas.
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