Estava a fazer limpezas na casa, a arrumar tudo, lavar etc. com os meus podcasts habituais de recovery e decidi mudar para outras coisas focadas em ultramaratonas e treino. Isto lembrou-me um texto que já devo ter escrito numa versão anterior do blogue ou se não escrevi, pensei de certeza.
Um desafio gigante no caso específico do álcool é criar uma nova identidade pós-fase do vício, pós "recuperação". O álcool é uma droga muito lenta na maior parte dos casos, pode demorar décadas até ser um problema suficientemente grave para chegarmos ao ponto de ativamente tentar parar. Depois, no meu caso, segue-se o que é uma autêntica epopeia de sucessos e retrocessos. É uma luta titânica, um desafio. No meu caso durou mais de 10 anos pelas razões que já abordei, coisas como ser bom a "gerir" os danos e ter algumas red-lines como nunca comprar bebidas brancas para casa e manter-me em cerveja e vinho ou nunca beber de manhã e almoço em dias de trabalho.
Sim, lembro-me que já escrevi sobre isto, mas provavelmente em 2025 numa das paragens. Um problema é que esta luta interna e épica transforma-se numa nova identidade. Somos alguém que está a lutar e vencer um vício lixado. De uma forma um pouco perniciosa, é uma luta interessante. Claro que ser pai ou trabalhar são coisas mais importantes, mas um vício está a montante dessas coisas (alguém que tenha um vício grave não consegue ser bom pai ou trabalhar bem). É algo que é basilar. Se fossem fazer um filme da nossa história ou um livro, esse combate, tanto a fossa como as progressões, seriam mais interessantes do que eu ser pai ou trabalhar em que sou igual a outras pessoas.
Um apelo da abordagem falida do método dos AA envolve manter a identidade do álcoólico. Mesmo alguém que deixou álcool durante anos continua a ir a reuniões e a autodenominar-se como viciado. Isto para mim é estranhíssimo, mas a alternativa é complexa. Ao menos AA ancora a nova identidade num permanente purgatório.
Oiço conteúdos de ex-drinkers mas que se tornaram profissionais disso, coaches. E sendo muito úteis, também é um facto que são a outra face da moeda: continuam ligados à temática do álcool e até mais forte que um alcoólico, é a profissão deles. Não faço qualquer juízo e agradeço o trabalho que fazem, muitas vezes gratuito e de qualidade.
Um receio óbvio é o virar da página. E se o álcool deixasse de existir praticamente no plano de um ex-consumidor? Levar à letra o conselho do magistral Alan Carr e "get on with your life" com que ele acaba o livro sobre o tema? É complicado encontrar outro arco narrativo, outra "demanda" existencial tão interessante e apaixonante. Vejo isto nas comunidades online que frequento. Se as pessoas estão lá, muitas vezes a lamuriar-se ("hoje o dia foi difícil", "isto fica mais fácil?", "ainda pensei em beber mas resisti") é porque obviamente ainda estão conectadas.
Eu ainda estou a explorar. Para já o foco está a ser em ser o melhor ultramaratonista que consigo. Se que não é com a minha idade (meio século) que serei elite (nem quero). Não se trata disso. Na verdade não tenho grandes ambições excepto fazer grandes provas em sítios incríveis e hikes pelo mundo. De resto, quero progredir no emprego fazendo trabalho interessante, ter namorada fixe, educar filhos, pescar, tocar piano, enfim, coisas normais. Para mim o substituto penso que está nas ultramaratonas que já faço há 10 anos. Penso que é esse porque tem um elemento de aventura apaixonante. Ando a treinar todos os dias, às vezes 2x por dia. É um caminho de progresso muito longo, mas uma decisão agora tem um impacto radical no meu futuro e rotina.
Isto está a ser a minha âncora de substituição até ver. Mas a verdade é que não sei bem o que vou ser sem álcool e isso é algo que assusta um pouco. Beber todos os dias é um guião, um lugar confortável e familiar, mesmo que se sofra muito nos intervalos. E bebi toda a idade adulta. Por isso há aqui algo de mistério, de grande ponto de interrogação. Descobrir quem é que somos, afinal.
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