Há um tipo de que gosto muito, o Kohdi Rayne, do programa Beyond Sober, tem um bom podcast com conteúdos bastante bons e que me ajudaram. Também vende programas de apoio etc mas que nunca frequentei.
Tal como face a todos os autores da esfera de métodos e princípios para deixar de beber, gosto de pensar no que diz e reagir com as minhas próprias ideias. Há coisas que diz que achei muito relevantes. Por exemplo, ele não se define como "sóbrio" porque sóbrio é estar entre bebidas. E tem razão. Serei eu "sóbrio" face a heroína? As pessoas que nunca beberam definem-se como "sóbrias"? Não. Se tomares a decisão de já não beber álcool, és só uma pessoa que não bebe álcool. Não nos definimos por não consumir drogas que não consumimos. Isto está no espírito do "beyond sober" porque se trata de uma nova identidade e não de uma luta permanente como o espírito (que também acho péssimo) dos AA e que o Kohdi critica muito. Em que se assume que queremos beber mas infelizmente não podemos e por aí fora.
Dito isto tudo que é demasiado resumido, ainda ontem ouvi outro podcast dele em que vem outra vez com a conversa da diferença entre um recovering alcoholic e um ex-alcoholic. Um recovering é o arquétipo do tipo dos AA, podem passar 10 anos, 20 e ele continua identificado como alguém que não pode beber. O ex-alcoholic é alguém que já não bebe e não quer, é passado.
Mas aqui está sempre a introduzir a ideia peregrina de que o estado máximo de libertação é poder beber e ter um buzz e não ficar viciado porque já não se quer beber.
Isto é algo que já pensei no passado, mas que acho que está profundamente errado. E que só contemplo com possível no discurso do Kohdi porque ele vende cursos. E vende mais dizer a alguém com vício de álcool que no fim da estrada está uma vida em que se ele quiser pode beber de vez em quando, visto que vai quebrar o vício e a dependência.
Isto é o mesmo princípio que fez o Alan Carr chamar ao livro de deixar de beber "the easy way to control alcohol", mesmo que depois na prática ele diga que não se pode beber nunca mais. Contudo, ele admite o artifício e diz que o livro fosse "the easy way to quit alcohol" (igual ao do tabaco) ninguém comprava o livro porque as pessoas com problemas com álcool detestam pensar que nunca mais podem beber.
Mesmo assim, acho que é uma ideia algo irresponsável e má da parte do Kodhi... Eu cheguei onde estou e custa-me perceber como é que um gajo que não bebe álcool nenhum ele próprio, depois de passar por uma vida de colapso do fígado e hospitalização após anos a beber 1,5L de vodka por dia, pode vender a ideia que ao fim do túnel está a possiblidade de beber como pessoas "normais" e apanhar um buzz. Eu aposto na boa como se o próprio Kodhi beber 2 shots de vodka, vai acabar a mamar 1,5 L de vodka em dias. Ele não o faz, não pratica o que prega (e ainda bem), mas devia pregar mais o que pratica.
Em nenhum discurso dele admite "não posso beber, se beber resvalo para o vício outra vez". Dá o ar que transcendeu o álcool e simplesmente não quer beber. E eu acho bem. Só acho mal é dizer que outra pessoa se quiser (e comprar o curso dele) pode beber de vez em quando se é isso que quer quando o próprio sabe que se fodia todo se fosse beber um par de shots.
Penso que já o devo ter escrito várias vezes nos poucos posts que este blogue tem: o álcool é uma substância química viciante que é bomba nuclear no cérebro. Não são 10 mil horas de podcasts e meditação ou terapia ou autoreflexão que mudam isso.
Se alguém consumiu heroína anos e anos e deixa heroínha, isso não significa que agora possa usar heroína de forma recreacional e ocasional. Isto é brutalmente intuitivo no caso de drogas como heroína ou coca, mas no caso do álcool parece que não. Mesmo que o consumo de álcool se arraste décadas e nessas décadas seja construída uma mother board no cérebro que vai acender como uma árvore de natal se sentir álcool, nem que sejam anos depois, há artistas do meio que falam do álcool como se não fosse uma droga inerentemente viciante.
Não tem nada a ver com um lado racional e elevação do espírito, superação, teologia, filosofia... É químico, biológico. Impossível de vender e contrariar, digo eu.
Mesmo na parte racional, há algo profundamente contra-intuitivo. Se alguém transcende o álcool (algo que ainda nunca consegui fazer) isso significa que percebeu que não o quer consumir nunca. Ora, se abre uma excepção... está a admitir que afinal vê benefícios e um lugar para o álcool na sua vida. Não há meio termo. Eu no limite até consegui "moderar" 1 ou 2 semanas depois de voltar a beber. Mas sem falha, voltei sempre a cair num consumo pesado diário. E percebi ao ouvir pessoal que esteve anos sem beber e voltou a cair, que podem passar anos e é igual. É a puta da droga em si, ponto. Cheguei a uma fase anterior em que eu já sabia que se bebesse ia voltar a um ciclo. Mas na altura sabia que quando as coisas ficassem más eventualmente parava para um período de abstinência como o meu actual. O problema é que sempre que estava num ciclo mau ele arrastava-se demasiado tempo. Em vez de um simples fim de semana deprimente a beber, eram 2 meses. Percebi que só consigo ter uma motivação real para parar quando a "dor" ou o "sofrimento" atingem um nível tal que o medo que geram me força a escolher parar. Enquanto for gerível, não vou parar. Nem eu nem ninguém. É por isso que um tipo que consiga por uns tempos beber só um pouco ao sábado, vai aos poucos também resvalar para mais e mais e mais... não vai decidir parar do nada visto que uns copos num sábado não lhe causam desconforto suficiente
Eu não tenho opiniões positivas sobre heroína, pelo contrário, nunca sequer fantasiei em experimentar. Mas o que acham que acontecia se eu começasse a experimentar heroína regularmente. Só um bocadinho aos fins de semana, socialmente? Enfim, isto parece-me muito simples. Que me digam "olha deixaste de beber 6 meses, podes beber hoje, sabes que vais acabar viciado outra vez e passar pelo processo todo outra vez e vai ser uma merda, mas tu é que sabes", isso é mais honesto e realista. Não gosto de vendedores de banha da cobra.
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