sábado, 3 de janeiro de 2026

Vantagens de ter sido viciado em álcool ou drogas (not click bait)

 Sim, há vantagens. Por mais danos que tenham sido feitos, problemas de saúde, finanças, relações, enfim... o outro lado da moeda existe e não está ao alcance de quem não passou por isso. Há coisas boas em coisas aparentemente 100% más se as ultrapassarmos. Podia dizer coisas parecidas de experiências que nunca tive como sobreviver a um cancro, sobreviver a um colapso financeiro total, um mau divórcio, enfim, todas as experiências negativas, difíceis e existênciais que nos afectam, são oportunidades para dar um salto enorme em termos de consciência, espiritualidade, felicidade e resiliência. Isto não é teórico, abstracto, mas concreto, real.

  1. Passamos a estar conscientes e gratos por coisas tão simples como uma boa noite de sono, sentirmo-nos bem, sem ansiedade, sem escravidão da droga. O que os "normais" nunca se apercebem, para nós é precioso e melhor por contraste. E por isso temos uma hiper-experiência da vida. Eu experimento esta sensação nas ultramaratonas: a meio de uma prova, passado 20 horas, se posso comer uma canja de galinha quente às 5 da manhã no topo da serra da Freita, essa canja de galinha vai-me saber 1000x melhor que qualquer canja de galinha na rotina. Depois de uma prova, quando posso tomar um duche quente e dormir numa cama, estou estupefacto com o conforto, com o calor e lençóis macios. Até estar sentado numa cadeira me enche de gratidão. Quando saímos de um vício, as coisas que os outros dão por adquiridas para nós são uma fonte extraordinária de felicidade. Um nascer do sol de consciência tranquila, sem ressaca, culpa. Uma fonte inesgotável de autoestima por termos passado o adamastor da adição. Ninguém nos tira isso. Vejo o mesmo padrão em sobreviventes de doenças graves como cancro. É estranho ouvi-los dizer que estão gratos e que foi a melhor coisa que lhes aconteceu, mas alguns dizem-no e depois de passares por um problema de dependência percebes melhor o que significa. Nenhum nascer do sol passa a ser indiferente. A existência torna-se um milagre mais real e ficas mais consciente do valor de tudo.
  2. É como se tivessemos tido uma âncora, um lastro o tempo todo... Se conseguiste manter uma espécie de simulacro de vida, um emprego, relações familiares, se tinhas hobbies que eram prejudicados pelo álcool ou vontade de começar outros mas não era possível, assim que se retira o álcool é como se levantássemos vôo. Porque viver sob influência do álcool exige uma persistência e resiliência fora do comum. Temos de gerir todos os aspectos negativos, cansaço, névoa mental, desidratação, falta de sono. Vamos sobrevivendo dia após dia, sofrendo todos os efeitos negativos durante semanas, meses, anos, ou mesmo décadas. E de repente esse peso desaparece. Isso dá-nos uma força brutal. É como ter um muscle car americano de 600cv que está com o travão de mão engatado... deixar de beber é tirar esse travão de mão e de repente, voamos a 300kmh porque fomos forjados e treinados num mundo negro e hostil em que as coisas eram todas 20x mais difíceis por estarmos ou bebedos ou ressacados. Eu penso em parte que é por isso que nos períodos de sobriedade fico com uma espécie de aparente hiperactividade.
  3. Temos maior consciência das nossas fraquezas e falhas e isso torna-nos mais empáticos. Também somos mais independentes. O lado que toda gente tem de julgar os outros fica um pouco relativizado. Conhecemos melhor a psicologia humana e as hipocrisias, as mentiras, a começar pelas nossas. Para começar e peço desculpa pelo cliché, ficamos mais zen. Menos conflituosos e mais lúcidos. Oiçam ex-dependentes de álcool falar e detectam este padrão. Estão normalmente mais ancorados num nível de consciência e paz acima dos normais, mais imperturbáveis. 
  4. Passas a ser alguém diferente, independente. No caso do álcool isto é mais extremo porque o álcool é uma droga socialmente aceite, legal, generalizada. Se deixas de o consumir e o vês pelo que é (uma droga, conceptualmente igual a heroína) passas a viver num plano de realidade distinto das massas que o consomem como robots e se envenenam todos os dias. Saíste da norma, pensas pela tua cabeça e não te deixas levar por coisas más só porque toda gente ou quase toda a gente a faz. Contra tudo e todos, escolhes o teu caminho. Isto é uma experiência que podes aplicar em múltiplos campos.
  5. Não estamos na zona cinzenta que é a de muitos consumidores de álcool que não acordaram. Muita gente vai beber álcool toda a vida e sofrer com isso. Podes ter inveja dessas pessoas, mas se tens, não percebeste a fundo ainda o que é o álcool e dos seus efeitos, mesmo em quantidades ditas moderadas. Tens inveja de quem consegue consumir heroína sem foder a vida toda? Na biografia do Keith Richards está lá isto. Ele - como muitos - conseguiu consumir heroína muitos anos com muita cautela e controlo médico. Eventualmente teve de parar. E a heroína tem muito menos efeitos secundários do que o álcool. A heroína é cirúrgica, o álcool rebenta com tudo, todos os sistemas do corpo. Um só copo de vinho rebenta com uma noite de sono. Se consegues deixar de consumir álcool podes ter uma boa parte da tua vida, a segunda parte da tua vida, livre de um veneno tóxico cancerígeno e instigador de ansiedade que impede toda gente que o consome de ser mais feliz, saudável, forte. E só não se apercebem disso porque nunca pararam de beber. Beberam toda a vida e vão beber toda a vida. No que respeita aos ditos consumidores "moderados", conheces alguém que goste de beber bons vinhos, whiskys etc. que beba de forma "moderada"? Eu nunca conheci uma só pessoa assim. Só conheço pessoas que ou gostam de beber ou que não gostam ou ligam nenhuma... As únicas pessoas que vi beberem apenas 1 ou 2 copos de vinho numa ocasião como um jantar são pessoas que não querem saber do álcool por aí além e não retiram dele qualquer prazer especial. Vou fazer um post só sobre um perfil de pessoas que mascaram o vício com vida social, já a seguir.
  6.  Também conheço pessoas que bebem muito (ex: 1 jarro de litro logo ao almoço...) e vivem assim a vida toda. Muita tolerância, um consumo socialmente integrado, mas vão envenenar o corpo para o resto da vida e ter eventualmente problemas graves. Tu não, chegas ao fim dessa estrada a tempo de ir para outra para a segunda parte da tua vida.
  7. Um dia parece que estica em tempo. É impressionante a quantidade de tempo que o álcool rouba ao empurrar-nos para um estado de letargia em que fica tudo focado em beber, sendo irrelevante a atividade que se está a fazer. Um dos problemas do início da sobriedade é mesmo a questão do que fazer com esse tempo novo livre. Isto é algo que quem não passa por isto não está 100% consciente. Mas para nós, de repente um fim de semana tem 32h livres, um serão pode ter 5-6 horas livres. Que é preciso preencher. Podem dizer-me que isso não tem vantagem face a alguém que nunca bebeu ou quase não bebe, mas eu não vejo assim. Acho que o "choque" de de repente ter muito mais tempo vazio e sentir tédio gera uma consciência mais focada em ter de aproveitar o tempo e ativamente fazer algo que nos entretenha e valha a pena fazer como desporto, hobbies, trabalho, ler, escrever.
  8. Se consegues deixar um vício tão difícil de deixar ( posso argumentar porque o álcool é o mais difícil de todos) e fazer o que a vasta maioria das pessoas não consegue, consegues aplicar a mesma coisa a qualquer desafio pela frente.












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