A experiência de passar por uma dependência grave e superá-la tem benefícios também que não estão ao alcance das pessoas que nunca passaram por isso. Uma dos maiores é poder observar-me a mim mesmo em todos estados: um ciclo de vício em que bebia todos os dias e outro em que estou 100% sóbrio semanas, meses a fio. Sou a mesma pessoa, o mesmo "hardware", mas os pensamentos num estado e noutro são radicalmente diferentes. E dá-se o infeliz caso da consequência de beber álcool (mesmo para não viciados, que só apanham uma carraspana 1 vez de vez em quando) ser ter o espírito inundado de pensamentos negativos, depressivos, nascidos de ansiedade, cansaço, esgotamento, cortisol em níveis estratosféricos, stress.
O álcool e outras drogas têm um efeito 1000x mais poderoso no nosso estado de espírito e pensamentos do que qualquer outra coisa. Quando se é viciado, ficamos focados na droga. Quando essa necessidade é satisfeita, os problemas e a situação de vida dissolvem-se. Falando por mim, todos os stresses, problemas, preocupações, desapareciam ao primeiro copo. Ao fim de uma garrafa já estava teoricamente feliz e sem preocupações nenhumas, apenas "existia" (parcialmente).
Óbvio que os problemas não desaparecem, apenas a nossa consciência deles. Isto no álcool é forte, mas não é tão evidente como noutra droga que uso como referência que é a heroína. Vemos o "agarrado" injetar-se, rolar os olhos para trás e frequentemente apenas parece adormecer num estado catatónico (lembrei-me agora do Christopher Moltissanti dos Sopranos ou o Jesse no Breaking Bad). A moca que apahavam parecia resumir-se a uma espécie de coma ou sesta, é o mesmo fenómeno do fentanyl nos EUA, ficam como zombies, letárgicos ou mesmo a dormir ferrados. E visto de fora parece a droga mais absurda de sempre: qual a diversão que pode existir se a forma de fruir a droga é literalmente ficar chapado num sofá. Com o álcool afinal de contas podemos pelo menos socializar - não me refiro a uma bebedeira completa que leva a um black out e colapso paralítico, ver um jogo de futebol... Mesmo alguém fortemente alcoolizado está pelo menos a falar muito, cantar karaoke, a dançar mal numa disco ou muito entusiasmado com alguma coisa.
Mas mesmo assim o princípio é exatamente o mesmo da heroína.
Alguém que se injecta pode de facto colapsar numa cama ou sofá e ficar sem fazer rigorosamente nada. Mas quem bebe todos os dias também pode acabar num sofá a ver coisas parvas na TV ou no feed do telemóvel, é irrelevante. O tempo fica suspenso.
Nada mudou na situação de vida, o efeito químico do álcool a interagir connosco é que vai suscitar essa reação de euforia e depois anestesia, mas nada muda. Esse efeito ansiolítico é 1000x mais poderoso que conversa, reflexão ou mesmo resolver algum problema concreto. É químico, é um hack, um curto circuito a mecanismo do cérebro que não foram feitos para serem atingidos com uma bomba nuclear como o etanol.
E depois vem o efeito oposto, como um pêndulo. E é sobre esse feito oposto que quero falar porque é muito menos óbvio. Já percebi por amigos que por vezes têm forte ansiedade nos dias seguintes a uma noite de copos e nunca associam as duas coisas. Pensam que a ansiedade vem de um problema que têm na vida com o trabalho, contas, relações, carreira, o que for. Mas não associam essa ansiedade a uma bebedeira dois dias antes.
O resultado de "pedir emprestado" esses momentos de relaxamento e euforia é pagar de volta com juros com os sintomas de privação que podem começar logo às 3 da manhã com uma insónia terrível, o coração a bater forte e uma ansiedade sem limites. Só que há um delay entre beber e sentir isto e o cérebro não associa uma coisa à outra. O cérebro valoriza mais o imediato. A consequência negativa não fica ligada ao consumo de álcool com a mesma força que o consumo e os efeitos.
Quando fazemos isto meses, anos, vamos acumulando esse tilt brutal e que vai ter um efeito poderoso em múltiplas áreas da vida:
- Vamos acumulando semanas, meses, anos, de privação crónica de sono reparador, perdemos capacidades cognitivas, regulação natural. O sono é o momento de recuperação. Sei por experiência muito próxima que boa parte do que eu sentia como ressacas (bem diferentes das ressacas de juventude de enjoo e dores de cabeça) era simplesmente privação de sono, porque já acordei da mesma forma sem ter bebido nada, apenas por ter dormido apenas 2 ou 3 horas. E reconheço a sensação. É igual a ficar 8h na cama depois de 2 garrafas de vinho.
- Como bebemos calorias vazias comemos menos coisas boas, não absorvemos tão bem os nutrientes (ex: B12), o nosso sistema digestivo também fica danificado, o fígado não filtra nem metaboliza bem gordura porque está sempre em modo de emergência a livrar-se de álcool. No fim dos meus ciclos eu até saltava refeições, sóbrio a ansiedade tirava-me apetite e à noite se estivesse sozinho podia comer um snack e já está.
- Temos a tensão elevada, respiração mais rápida durante o sono, coração a bater mais rápido, stress permanente.
- Desidratação crónica.
- Como se não bastassem os efeitos químicos no corpo, juntam-se efeitos práticos na nossa situação de vida: mais álcool significa menos tempo para tomar conta de nós, da casa, do trabalho, de obrigações, das relações pessoais. As coisas acumulam-se e temos cada vez mais coisas com que nos preocuparmos. Em casos mais extremos podemos ter problemas sérios como multas ou mesmo crime por conduzir com álcool - ainda mais extremo causarmos um acidente, magoarmos alguém. Perdemos coisas, a carteira, telemóvel, entramos em situações arriscadas, podemos ser despedidos. Tudo isto são problemas que vão somar-se à ansiedade de base que o álcool provoca, ou seja, começamos a ter problemas reais que não existiam apenas devido ao álcool.
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