sábado, 3 de janeiro de 2026

A mente de um "drogado", ou como o teus pensamentos não são reais

A experiência de passar por uma dependência grave e superá-la tem benefícios também que não estão ao alcance das pessoas que nunca passaram por isso. Uma dos maiores é poder observar-me a mim mesmo em todos estados: um ciclo de vício em que bebia todos os dias e outro em que estou 100% sóbrio semanas, meses a fio. Sou a mesma pessoa, o mesmo "hardware", mas os pensamentos num estado e noutro são radicalmente diferentes. E dá-se o infeliz caso da consequência de beber álcool (mesmo para não viciados, que só apanham uma carraspana 1 vez de vez em quando) ser ter o espírito inundado de pensamentos negativos, depressivos, nascidos de ansiedade, cansaço, esgotamento, cortisol em níveis estratosféricos, stress.

O álcool e outras drogas têm um efeito 1000x mais poderoso no nosso estado de espírito e pensamentos do que qualquer outra coisa. Quando se é viciado, ficamos focados na droga. Quando essa necessidade é satisfeita, os problemas e a situação de vida dissolvem-se. Falando por mim, todos os stresses, problemas, preocupações, desapareciam ao primeiro copo. Ao fim de uma garrafa já estava teoricamente feliz e sem preocupações nenhumas, apenas "existia" (parcialmente). 

Óbvio que os problemas não desaparecem, apenas a nossa consciência deles. Isto no álcool é forte, mas não é tão evidente como noutra droga que uso como referência que é a heroína. Vemos o "agarrado" injetar-se, rolar os olhos para trás e frequentemente apenas parece adormecer num estado catatónico (lembrei-me agora do Christopher Moltissanti dos Sopranos ou o Jesse no Breaking Bad). A moca que apahavam parecia resumir-se a uma espécie de coma ou sesta, é o mesmo fenómeno do fentanyl nos EUA, ficam como zombies, letárgicos ou mesmo a dormir ferrados. E visto de fora parece a droga mais absurda de sempre: qual a diversão que pode existir se a forma de fruir a droga é literalmente ficar chapado num sofá. Com o álcool afinal de contas podemos pelo menos socializar - não me refiro a uma bebedeira completa que leva a um black out e colapso paralítico, ver um jogo de futebol... Mesmo alguém fortemente alcoolizado está pelo menos a falar muito, cantar karaoke, a dançar mal numa disco ou muito entusiasmado com alguma coisa.

Mas mesmo assim o princípio é exatamente o mesmo da heroína. 

Alguém que se injecta pode de facto colapsar numa cama ou sofá e ficar sem fazer rigorosamente nada. Mas quem bebe todos os dias também pode acabar num sofá a ver coisas parvas na TV ou no feed do telemóvel, é irrelevante. O tempo fica suspenso.

Nada mudou na situação de vida, o efeito químico do álcool a interagir connosco é que vai suscitar essa reação de euforia e depois anestesia, mas nada muda. Esse efeito ansiolítico é 1000x mais poderoso que conversa, reflexão ou mesmo resolver algum problema concreto. É químico, é um hack, um curto circuito a mecanismo do cérebro que não foram feitos para serem atingidos com uma bomba nuclear como o etanol.

E depois vem o efeito oposto, como um pêndulo. E é sobre esse feito oposto que quero falar porque é muito menos óbvio. Já percebi por amigos que por vezes têm forte ansiedade nos dias seguintes a uma noite de copos e nunca associam as duas coisas. Pensam que a ansiedade vem de um problema que têm na vida com o trabalho, contas, relações, carreira, o que for. Mas não associam essa ansiedade a uma bebedeira dois dias antes. 

O resultado de "pedir emprestado" esses momentos de relaxamento e euforia é pagar de volta com juros com os sintomas de privação que podem começar logo às 3 da manhã com uma insónia terrível, o coração a bater forte e uma ansiedade sem limites. Só que há um delay entre beber e sentir isto e o cérebro não associa uma coisa à outra. O cérebro valoriza mais o imediato. A consequência negativa não fica ligada ao consumo de álcool com a mesma força que o consumo e os efeitos. 

Quando fazemos isto meses, anos, vamos acumulando esse tilt brutal e que vai ter um efeito poderoso em múltiplas áreas da vida:

  • Vamos acumulando semanas, meses, anos, de privação crónica de sono reparador, perdemos capacidades cognitivas, regulação natural. O sono é o momento de recuperação. Sei por experiência muito próxima que boa parte do que eu sentia como ressacas (bem diferentes das ressacas de juventude de enjoo e dores de cabeça) era simplesmente privação de sono, porque já acordei da mesma forma sem ter bebido nada, apenas por ter dormido apenas 2 ou 3 horas. E reconheço a sensação. É igual a ficar 8h na cama depois de 2 garrafas de vinho.
  • Como bebemos calorias vazias comemos menos coisas boas, não absorvemos tão bem os nutrientes (ex: B12), o nosso sistema digestivo também fica danificado, o fígado não filtra nem metaboliza bem gordura porque está sempre em modo de emergência a livrar-se de álcool. No fim dos meus ciclos eu até saltava refeições, sóbrio a ansiedade tirava-me apetite e à noite se estivesse sozinho podia comer um snack e já está.
  • Temos a tensão elevada, respiração mais rápida durante o sono, coração a bater mais rápido, stress permanente.
  • Desidratação crónica.
  • Como se não bastassem os efeitos químicos no corpo, juntam-se efeitos práticos na nossa situação de vida: mais álcool significa menos tempo para tomar conta de nós, da casa, do trabalho, de obrigações, das relações pessoais. As coisas acumulam-se e temos cada vez mais coisas com que nos preocuparmos. Em casos mais extremos podemos ter problemas sérios como multas ou mesmo crime por conduzir com álcool - ainda mais extremo causarmos um acidente, magoarmos alguém. Perdemos coisas, a carteira, telemóvel, entramos em situações arriscadas, podemos ser despedidos. Tudo isto são problemas que vão somar-se à ansiedade de base que o álcool provoca, ou seja, começamos a ter problemas reais que não existiam apenas devido ao álcool.
Quando estamos imersos num ciclo de vício temos uma visão completamente irreal da nossa situação, da existência, da vida. Tendemos a sermos mais pessimistas, ansiosos. E isto tem efeito na própria força de vontade e clarividência que é preciso ter para dizer "basta" e fazer um dia 1, 2 , 3.... e começar a sobriedade. Porque é difícil acreditar que a vida pode ser boa, sem álcool. Do mesmo modo que há óculos "cor de rosa" também há óculos monocromáticos em que tudo parece mau, catastrófico, sem esperança.

Atenção, eu próprio estou céptico, apenas já sei que não devo agir com base no que penso, mas sim "agir" como se fosse uma pessoa feliz, um atleta, um bom profissional, um bom pai, o que for.
Nem que se finja como um actor no início. Porque também foi sempre essa a minha experiência. De novo, é algo químico. Temos de nos habituar e refazer. E com o tempo passa a ser o nosso novo normal. Recuperamos prazer em coisas que antes que eram soterradas no shot químico do álcool.

Eu noto isto em pessoas com depressão, algumas delas sem qualquer vício. Sabemos que se saíssem à rua e fossem correr 30 minutos ou andar à beira mar e apanhar um pouco de sol se sentiam melhor. Mas as pessoas com depressão vão dizer: "tenho uma depressão, não consigo"
E isto cria a mesma espiral que no álcool. Aliás, pelo que sei os antidepressivos são receitados para que as pessoas possam retomar uma vida mais normal em que conseguem sair da cama. Porque alguém que passa um dia inteiro na cama sem conseguir sair dela é óbvio que terá depressão. Precisa de funcionar, tomar banho, vestir-se, sair à rua, começar aos poucos a fazer uma vida normal.

Não é possível vencer este braço de ferro pelo poder da mente. Sou muito céptico quanto a psiquiatras e álcool, mas percebo perfeitamente porque é que no caso das depressões podem ajudar. É que numa depressão sem substâncias à mistura (como o álcool logo à cabeça) pode ser preciso alterar a "bioquímica" do cérebro para dar um empurrão e tirar a pessoa da espiral destrutiva. No caso de pessoas com um problema de dependência de álcool é a própria substância do álcool que produz o estado "depressivo", pelo que a solução será eliminá-la. Ao eliminar esse fator e com o passar dos dias, especialmente a partir do momento em que o sono começa a estabilizar e a ser reparador, o estado de espírito melhora.

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