quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Tapering para deixar de beber álcool e porque acho péssima ideia

 Tapering significa ir reduzindo a quantidade de álcool ao longo do tempo até parar. Escrevo isto porque hoje ouvi mais um podcast do excelente Kohdi Rayne do Beyond Sobber que vende programas de deixar de beber e faz coaching, para além de ter toneladas de conteúdos gratuitos de excelente qualidade. Contudo, há coisas que ele diz com que discordo e não sei mesmo se ele não as diz para vender mais coaching, uma vez que diz que consegue meter viciados em álcool a beber cada vez menos até pararem (ou apenas reduzirem).

Vou explicar porque acho um erro, mas primeiro, o óbvio aviso de que o álcool é a única (ou das únicas) drogas de que se pode morrer pelos sintomas de privação. Isto só acontece em casos extremos, mas que precisam de supervisão médica e penso que para compensar o que é administrado são benzodiazepinas. Por isso claro que há uma razão médica que assusta pessoas que bebem pois têm medo de morrer ou ter sintomas de privação terríveis, delirium tremens e coisas do género. Como dizem os americanos, consult your phisician. No meu caso, nem com 3 garrafas de vinho por dia 1 mês a fio chego a ter sequer tremores por aí além e a privação resume-se a uma ansiedade brutal nos primeiros 2-3 dias, suores noturnos, pesadelos, insónias. Nunca senti nada próximo de perigo e creio ser o caso da vasta maioria de quem é viciado em álcool. Outra questão são casos como o próprio Kohdi que bebia 1.5L de vodka por dia (2 garrafas) e bebeu durante anos e anos todos os dias até um colapso do fígado e hospitalização quando parou de beber (o coração dele parou e demorou mais de 1 ano até voltar a andar e mexer-se normalmente).

Voltando ao tema do tapering. Acho que não resulta por vários motivos que vou apresentar em bullets:

  • Já tentei reduzir e moderar. Penso que todas as pessoas que têm um problema com álcool e reconhecem que estão a abusar começam precisamente por tentar isto. E nunca conseguem.
  • O álcool é uma droga altamente viciante. Se alguém tem um problema com álcool, a exposição à droga viciante vai sempre provocar vontade de consumir mais. E quem bebe 2 garrafas por dia não tem interesse em beber 1 ou meia garrafa. Quer beber 2 ou mais. É o nível dessa pessoa. A dose. Menos que isso causa sintomas de privação. Ora, o álcool tem o condão de afectar a capacidade de tomar decisões (isto não acontece com tabaco por exemplo). Se alguém já tem uma pulsão para beber, depois de uns shots de vodka não me conseguem convencer que essa pessoa vai ter clareza de espírito para parar a meio quando já está tocada. 
  • Mesmo que essa pessoa se submeta à tortura de beber menos que o que lhe apetece beber de forma sistemática ao longo do tempo (semanas, meses, até parar), isso só vai reforçar a importância mágica da droga álcool. Eu imagino que seria para mim tentar beber 3 copos de vinho por dia em vez de 15. Contaria as horas até poder beber os meus 3 copos mágicos. Em vez de ter absoluto NOJO de álcool, era colocá-lo num pedestal e parar de beber com a sensação de que queria mais. Eu sempre que parei fiz o oposto. Fui para vinhos baratos nojentos, especialmente vinhos brancos, para os beber QUENTES. O sabor e o cheiro davam-me náuseas. Por vezes na bebedeira depois de 2 garrafas e meia saía para comprar uma 4a garrafa. Sempre que fiz isto com muito raras excepções nunca toquei na 4a garrafa. Tinha só medo de querer mais depois da 3a e não ter. Mas era o meu limite físico. A partir daí queria ir para a cama e dar o dia por terminado. A melhor posição para se deixar de beber é ter um asco total ao álcool. Isto não é suficiente para parar, mas ajuda bastante. O grande Alan Carr fala nisto, truques como fumar outras marcas de tabaco nojento em vez do habitual e no fim de beber, antes de parar, escolher um álcool que detestamos absolutamente (uma das minhas tentativas foi feita com vodka quente sem gelo e sem nada, não bebi durante meses depois disso.)
  • Mesmo que em teoria - em TEORIA - alguém que bebe quantidades enormes conseguisse só beber 2 copos e se habituasse a isso... por que razão essa pessoa iria parar? Se já consegue de facto moderar ao ponto de ter um consumo supostamente seguro e socialmente normal, por que raio iria deixar de beber esses 2 copos? Nesse cenário (que acho altamente improvável) essa pessoa não iria ficar parada nos 2 copos...  os 2 copos um dia voltavam a ser 2 ou 3 garrafas.
  • Mesmo um copo apenas fode o sono todo. Acredito que parte da recuperação está também em sentirmo-nos bem por contraste ao inferno da droga e dormir bem é crucial. Perpetuar uma situação cinzenta impede de chegar a um ponto de recuperação ativa mais forte. É apenas menos veneno, mas é veneno na mesma. 
  • Queremos despedir-nos da droga com convicção de que é uma droga viciante e destrutiva. Não queremos guardar na memória que houve uma ou duas semanas em que até reduzimos para 2 ou 3 copos, um consumo "normal" ou seja o que for. É essa última memória que fica. Assim perante um trigger, a pessoa que passou dias e semanas ou meses a "reduzir" até parar, tem memória que conseguiu "controlar" e assim é capaz de aceitar a bebida que lhe oferecem depois de meses sóbrio... E trau, volta à estaca zero.

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