Desde o tempo em que percebi que tinha um problema por acidente (tentei cortar no álcool apenas pelo excesso de calorias consumidas e só depois de ver quão difícil era moderar é que me caiu a ficha) até ter tentativas reais de parar para sempre, passaram uns 10 anos. As fronteiras são um pouco indefinidas, foi um processo gradual, embora marcado por algumas epifanias. Diria que só nos últimos 3-4 anos é que percebi que o ideal era nunca mais beber, nos primeiros tempos as minhas paragens e períodos sóbrios tinham como objetivo fazer um reset e depois tentar moderar.
Sou um tipo inteligente, por isso eu próprio fico algo perplexo com a dificuldade extrema que tive em deixar de beber "para sempre" e ter demorado tanto tempo. E coloco o para sempre entre aspas porque é um processo contínuo. Nunca sei o amanhã. Só sei que hoje não bebo. A diferença face a tentativas de há 5 ou 6 anos atrás é que tinha sempre um objetivo de dias (30, 60, 100 etc.) e depois moderar. Neste momento não tenho um objetivo de dias. Estou só no início (vou em 18 dias) deste período, mas sei que é semelhante a alguns períodos de 2025 em que não bebi 2-3 meses. Aliás, não bebi mais de metade de 2025. Contudo tive os meus meses mais pesados de bebida também, especialmente os 2 últimos meses de bebida.
Segue aqui uma lista de razões, sem nenhuma ordem específica, que explicam porque no meu caso o problema se arrastou tanto tempo.
- Tinha uma enorme disciplina no tipo e quantidade de álcool que consumia. Nunca tocava em bebidas brancas - excepto em raríssimas excepções como casamentos em que descarrilava. No meu dia a dia ficava-me por cerveja e vinho, sempre. E só comprava a quantidade diária, nunca tinha um stock de álcool em casa. Houve excepções como quando cometia o erro de comprar um tetrapak de vinho barato, uns 5L. Nessas excepções num fim de semana bebia muito mais, ao ponto de ter black outs durante o dia. Serviam-me de aviso. O tetrapak é opaco, não tinha noção. Mas mostrava-me que se o álcool estivesse disponível e eu tivesse tempo e espaço para estar sozinho, o resultado era beber o dobro de um dia normal.
- 99% da bebida era em casa num ambiente controlado. Com os anos deixei de beber em público, conduzir, nunca bebi antes de trabalhar, evitava socializar em bares e discotecas. Portanto era muito difícil acontecer algo "mau" que servisse como um rock bottom que fosse um catalisador para parar, como estampar o carro, andar à pancada ou fazer algum disparate catastrófico. O meu limite era adormecer no sofá em vez de adormecer na cama.
- Fazia muito desporto. Nos primeiros tempos apesar de beber 1 garrafa de vinho por dia no mínimo ou 1 e 3 cervejas, comecei também a correr. Paradoxalmente comecei a ficar cada vez mais fit, a correr maratonas em bons tempos e depois ultramaratonas. O desporto de endurance tinha um claro efeito de contrabalançar os efeitos do álcool, tanto a nível físico como psicológico (anti-depressivo, anti-ansiedade). Este efeito do desporto só desaparecia na marca da 2 garrafas por dia, a partir daí as ressacas e estado geral impediam-me de treinar. E ao parar de treinar o efeito do álcool tornava-se colossal porque era conjugado com uma paragem de desporto: o meu peso disparava, a depressão e ansiedade disparavam. Mas sempre que conseguia parar de beber voltava a fazer muito desporto e tinha um período luminoso de bem estar.
- Pegando no ponto acima: passava períodos sóbrio. Era intermitente. Isto parece positivo (passei metade de 2025 sem beber), mas também tinha como resultado perpetuar os ciclos. Sempre que caía num fosso infernal de bebida diária pesada, só tinha na cabeça parar. Tinha total consci|encia do horror da minha existência. Eventualmente conseguia parar umas semanas, uns meses. E isso fazia o meu corpo recuperar, a vida endireitar-se outra vez. Quando tinha um relapso, partia de um corpo mais forte e demoraria semanas ou mais até voltar a sentir-me mesmo muito mal de novo. O efeito é cumulativo num perfil de consumo como o meu. 2 garrafas num dado dia têm um efeito mau, sim, mas 2 garrafas (ou mais) ao longo de 2 meses têm um efeito devastador.
- O facto de ter conseguido parar antes significava que conseguia parar. E isto tinha um efeito pernicioso porque quando estava perante um gatilho forte como um primeiro date, na minha cabeça o cálculo era "vou beber hoje, aproveitar esta noite, depois não bebo mais, se ficar viciado de novo, sei que consigo parar". A minha capacidade de ao fim de um período infernal conseguir parar era também a mesma razão que me levava facilmente a voltar a consumir, visto que sabia por experiência própria que ia conseguir parar (isto mesmo assim não compensa, os períodos de bebida arrastavam-se demasiado tempo e tinham consequências muito más).
- Apesar da bebida mantinha emprego, relações sociais, vida familiar, vida romântica. Vou ser claro, era uma versão de mim a 10% do potencial, mas não era uma catástrofe. Nunca fui violento ou beligerante com álcool. Era simpático. Até a minha filha gostava de coisas dessa versão, era pessoa para a abraçar e dar beijinhos, tocar guitarra com ela, etc. Não era o arquétipo do pai alcoólico que espanca e grita ou é totalmente negligente. No trabalho e em textos que fiz, aconteceu-me ser amplamente elogiado pela minha produção intelectual em manhãs depois de beber 3 garrafas no dia anterior. Aliás, em textos online pessoais escrevi dezenas em blackout completo e no dia seguinte tinha dezenas de likes e elogios rasgados.
- Fui solteiro a maior parte desse tempo, só tinha relações curtas (meses) e a minha relaçao mais longa e melhor nesse período foi à distância. Também me isolei socialmente. Sabia que o meu consumo era incompatível com uma vivência partilhada de forma permanente. Nesse espaço de solidão ao serão, podia fazer o que queria e beber como queria. Mesmo assim o álcool eventualmente começou a causar um stress grande na nossa relação especialmente devido a consumos enormes em ocasiões como páscoa, verão, casamentos, em que eu basicamente abria a torneira e bebia até black outs humilhantes para mim e para ela. Solteiro e sozinho, não tinha esse problema. Este factor junta-se aos outros. O resultado final é que ninguém a não ser um dos meus melhores amigos levava a sério o meu problema. Tinha de ser eu a explicar a amigos que não podia beber. Ninguém - excepto essa namorada à distância - tinha um problema pelo facto de eu beber. A minha filha só se queixava de eu não me lembrar do episódio anterior de uma série ou de adormecer no sofá. Mesmo neste último período a minha própria mãe ofereceu-me vinho na manhã de natal. Era frequente mesmo junto de família próxima me oferecerem vinho pelo Natal. Ninguém me levava a sério porque ninguém via. Como ninguém via, também não tinha uma penalização.
- Ganhei a identidade do "viciado em recuperação". Isto é uma coisa de que só me apercebi mais para o fim. Deixar um vício pesado e difícil é um desafio formidável, mas extremamente interessante. Há filmes e biografias interessantes sobre isso (o do Jack London ou textos de Charles Bukowski são exemplos). Era como se eu fosse interessante ou estivesse a viver uma epopeia, uma combate, um arco narrativo intenso e a assistir a um filme. Deixar completamente o problema para trás é muito difícil. É por isso que certos sistemas como os alcoólicos anónimos perpetuam para o resto da vida essa luta ou identidade do viciado. É por isso que temos de ver sempre com alguma distância os conteúdos feitos por sobriety coaches: eles deixaram de beber, mas o processo e o álcool é tão importante para eles que fizeram disso a sua nova identidade, passam a ser coaches, autores, youtubers ou poadcasters dedicados ao tema de deixar de beber, que na prática é apenas o outro lado da moeda de estar viciado em álcool. Para pessoas que, como eu, não têm essa vontade, pelo menos conscientemente, é bem mais difícil saltar para uma nova existência em que o álcool deixa de ser tema e desaparece. Sobra um vazio indeterminado e é preciso outros arcos narrativos. Tenho a certeza que contribuiu para eu fazer o shift para "deixar para sempre" o facto de me fartar dessa espécie de dia da marmota em que as coisas são um deja vu e eu próprio me enjoei de mim mesmo e dessa história.
- O último factor de que me lembro é o benefício positivo de um pouco de álcool no contexto de dating. Já escrevi sobre isso, bem sei que no agregado não há benefícios no álcool (incluindo em relações amorosas), mas também sei por longa e intensa experiência de dating que é um dos raros contextos em que um pouco (não me refiro a uma carraspana black out) de parte a parte tem um efeito profundamente facilitador de, digamos, aproximação entre dois estranhos. Vou insistir nisto: quase todas as drogas têm um contexto muito particular em que podem ampliar uma experiência e serem positivas de um ponto de vista funcional. Opióides podem ser uma droga viciante e devastadora, mas também são úteis para tratar dor no curto prazo no contexto de um hospital ou recuperação. A cafeína tem efeitos terríveis, mas no contexto muito específico em que alguém sem tolerância a toma, tem um efeito enorme na produtividade ou capacidade desportiva naquele contexto. Eu dou-me muito mal com cannabis, excepto num concerto de rock em que posso estar só a apreciar a música e as luzes, em que tem um efeito que aumenta as impressões sensoriais (tive experiências incríveis em concertos de Sonic Youth, Massive Atack, e Portishead por exemplo). O álcool tem um efeito muito específico na socialização e romance, digam o que disserem. Para contrariar isto os coaches de sobriedade tendem a resvalar para extremos: sim, alguém com os copos não socializa, não tem bons dates, está bebedo. Mas refiro-me a uma pequena quantidade relativa, apenas a suficiente para baixar a guarda, ser mais espontâneo. Se fosse possível - no meu caso não é - apenas consumiria álcool 1 a 2x por mês, a quantidade suficiente para ficar animado num date ou jantar com amigos ou festa. Seria algo recreativo. Este desejo contribuiu para quase todos os meus relapsos em 2025. Dos meus 5 relapsos que interromperam períodos de sobriedade, 4 deles ocorreram num primeiro date. E todos esses 4 dates correram muito bem, resultando em intimidade. Posso contrapor com outros 2 dates que tive em que não bebi (nem elas). E esses dates não deram em nada de romântico ou sexual. Isto é tão sério que para 2026 alterei completamente a minha abordagem, embora isso seja tema para outro post. Cheguei ao ponto em que assumo imediatamente que não consumo álcool com potenciais dates e estou disposto a não ter sucesso nenhum nos primeiros dates, algo que é completamente contraditório com a minha experiência. Mas tenho de treinar essa abordagem e estar disposto a isso, sacrificando uma das coisas de que gosto mais e que também é, em parte, um vício.
- O facto de ter todas as atividades engatilhadas e prontas a disparar como a corrida, ciclismo, piano, pesca, escrita etc. faz com que os meus períodos de sóbrio sejam bons. Paradoxalmente se a vida nos corre bem, é fácil esquecer o inferno total que foram os dias de bebida. Passam semanas, meses, e torna-se uma memória distante. Certamente que o eu "sóbrio" de agora não vai cair outra vez num ciclo infernal! E isso abre a porta para relapsos. A memória tende a esquecer o mau.