Aqui há uma bifurcação numa decisão binária: bebo, sim ou não? Há experts que defendem que nestes casos se faça um play the tape forward. Acho um bom exercício, mas penso que é mais poderoso quando é focado no curto prazo e menos no longo prazo que é mais abstrato.
Um longo prazo aqui seria algo como "se beber hoje, nunca vou deixar de beber, vou ficar cada vez pior, daqui a uns anos até posso perder o emprego, a casa, a saúde" etc. Mas isso é abstrato. O concreto é mais algo como "se beber hoje, já sei que não vou estudar piano esta noite, não vou cozinhar uma boa refeição nem ver um bom filme com a minha filha. Vou estar ausente e não responder de forma lúcida a mensagens. Vou dormir mal. Amanhã de manhã vou acordar ansioso, deprimido e culpado. Não vou treinar ou se for treinar vou treinar pior. Vou sentir-me pessimamente. Vou ter de fazer reset à contagem dos dias. Provavelmente vou ter de beber amanhã também e esse ciclo deve-se arrastar mais semanas ou meses até voltar a bater no fundo e parar. E tudo porquê? Por causa de uma hora de anestesia e euforia hoje."
Beber álcool é como preparar uma bomba com um temporizador que vai explodir no dia seguinte. Dar um toque na má peça de dominó. Os vícios funcionam assim: o meu eu de amanhã que lide com as consequências, eu quero isto já.
É como um presente negativo, uma armadilha que preparamos para nós próprios.
Quando acordamos no dia seguinte estamos sempre felizes por não ter bebido no dia anterior. Aliás, mesmo a adormecer na cama, sóbrio, penso sempre nisso. O problema é que não beber é não fazer algo e o cérebro não regista isso da mesma forma que regista fazer algo. Remeto para o post anterior, é por isto que acho poderoso preencher o tempo com algumas coisas que não faríamos com os copos, no meu caso agora é correr e estudar piano, mas podia ser qualquer outra coisa. Nomeamente preparar presentinhos e mimos para o eu do dia seguinte. Coisas que nunca faríamos ébrios e que nos facilitam a vida do eu de amanhã. Podem ser coisas completamente básicas.
Uma para mim é deixar a cozinha limpa, a bancada totalmente limpa e a loiça lavada. Eu sei que é básico, mas o resultado é que quando acordo de manhã e vou à cozinha encontro algo pronto a usar, reluzente e organizado. Se quero fazer um sumo de laranja o espremedor está limpo, copos estão limpos, as laranjas estão no frigorífico. Isto lembra-me logo ao nascer do dia que ontem não bebi e respeitei o meu eu do dia atual.
Outro é ter a roupa desportiva dos treinos de corrida já preparada e ao lado da cama. Assim acordo e posso imediatamente equipar-me e ir treinar, sem perder tempo à procura de um par de meias ou daquela camisola térmica que está não sei onde, do frontal que pode ter a bateria descarregada e por aí fora. É como um "olha, facilitei-te a vida!" do nosso eu do passado.
Outra é perder sempre algum tempo para arrumar a casa.
Outro é tomar suplementos e vitaminas todos os dias ao jantar enquanto bebo água. Os suplementos (b12, carnitina, omega 3, creatina, magnésio...) podem ter um efeito placebo, mas o acto de os tomar religiosamente serve de reforço do conceito de "em vez de me envenenar para amanhã, estou a dar-me nutrientes para amanhã". É que o álcool faz um efeito imediato e óbvio. Suplementos não.
Isto são exemplos muito simples que começam logo no curto prazo e têm impacto no dia seguinte, de uma forma ou de outra.
Ontem pensei profundamente sobre por que razão ainda caí muitas vezes na armadilha de beber depois de semanas ou meses sem beber, apesar de saber tudo sobre isto e especialmente no gatilho número 1 que são dates. Sei que o que sucede é uma total e completa valorização do momento presente: estou no date e só quero que o date corra bem, o resto é-me irrelevante, o meu eu de amanhã que lide com as consequências.
E assim funciona o vício: bebes numa noite, até pode ser pouco, mas inevitavelmente no dia seguinte vem ansiedade, depressão, cansaço, culpa, mal estar psicológico geral. Se calhar não vou treinar porque preciso de descansar mais. Ao não treinar, não beneficio do boost de endorfinas naturais do treino, o que agrava o meu estado. Como estou mais cansado, o trabalho pode sofrer e isso causa ansiedade. A casa fica desarrumada. Acordo de manhã e tenho a confusão da loiça suja do dia anterior na bancada da cozinha e isso gera ansiedade e complicação (preciso de arrumar, não consigo cozinhar um pequeno almoço etc.)
Como se fez um reset aos dias é muito fácil pensar "bom, agora mais vale beber mais xis dias e depois páro". E começa outro ciclo que pode demorar 1 ou 2 meses até ser infernal. E tudo devido ao efeito dominó de umas bebidas numa noite.
Quando não bebes e isso inicia uma reação em cadeia no dia seguinte, só que uma reação boa, que peca por potencialmente ser invisível se não for preenchida com coisas e acções tangíveis. Aqui é muito importante perceber que isto é dinâmico, diário, permanente. É preciso manter a bola a rolar.
Dou como exemplo as minhas duas principais atividades, corrida e piano, mas foco-me na corrida:
- Se eu falhar 1 treino que seja, sei que corro o risco de falhar uma série de treinos. Por vezes devido a trabalho aconteceu-me ter de parar mais de uma semana. Isto tem um efeito catastrófico na motivação. Depois já com tempo livre para correr, não corro. Passam-se semanas, da última vez foram 3 meses sem correr - também devido a álcool, mas uma coisa está ligada à outra. O que sucede é que à medida que não treino, sei que fico em menor forma e sinto-me cada vez menos motivado para fazer o treino seguinte.
- No piano, se passar 1 dia sem tocar, significa que a última sessão de estudo de uma peça fica mais diluída na memória e é preciso voltar atrás e repetir. Isso é desmotivante. Se estudar todos os dias, todos os dias avanço para a frente, nem que sejam só 20 minutos a recapitular. Se passar 1 ou 2 semanas ando ainda mais para trás. O resultado inevitável é parar completamente.
Isto são só dois exemplos. Tavez a metáfora melhor seja a de um efeito dominó mas em que temos de ir colocando peças novas à frente das anteriores para manter o momentum.
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