sábado, 27 de dezembro de 2025

Mito 2: "não tentes mudar muita coisa logo, foca-te só em deixar de beber primeiro" (ou porque o conceito de uma nova identidade é a solução)

Isto é algo que vejo repetido em múltiplos conteúdos de coaches e audiobooks, embora também seja contrariado por outros (lembro-me do excelente beyond sobber, embora o Kody também tenha péssimos conselhos que um dia abordarei). A ideia benevolente de alguns supostos experts é que se para além de deixar de beber nos metemos em 10 coisas novas, ficamos assoberbados e com demasiada pressão e isso pode levar a um relapso.

Acho que isto é falso. Não tenho dúvidas que deixar de ingerir álcool é o mais importante, mas deixar de fazer algo é simplesmente numa negação, um vazio. É fácil ficar completamente perdido nas novas horas livres, em tédio, em depressão, numa estagnação. E numa identidade difusa e incerta. Beber fazia parte da nossa identidade. Se um serão já não é passado a beber, o que fazer? Se começamos a acordar mais cedo e com energia, o que fazer? O tédio e vazio é um enorme gatilho para beber. É aqui que entra o meu conceito de criar uma nova identidade positiva e incompatível com álcool de raiz e fingir que somos essa pessoa até sermos essa pessoa. Isto pode variar muito e depende dos teus gostos e inclinações. Mas o objetivo será fazer coisas que são dissonantes com beber, incompatíveis.

No meu caso são estas, mas para ti podem ser outras:

  1. Desporto. Não me interessa se nunca fizeste. No meu caso é a corrida combinada com ciclismo e pesos, tenho treinadora, 7 treinos por semana. Qualquer pessoa pode fazer alguma coisa física. No início, depois de uma paragem ou se nunca o fizemos, pode demorar até encaixar e tornar-se um vício saudável, algo natural que precisamos e gostamos de fazer. É uma forma de tornar reais os benefícios de parar de beber: podemos treinar. Pode ser caminhada, corrida, ciclismo, surf, ténis, judo, natação, ginásio, etc. O que for preciso. O desporto tem um fortíssimo efeito psicológico positivo, é um poderoso anti-depressivo e anti-ansiedade. Torna real a nossa nova energia e capacidade. Começamos a gerar objetivos dentro do desporto e sabemos que o álcool é completamente contrário a esses objetivos. Mudar o próprio corpo para melhor como perder peso, ganhar músculo, é uma forma de tornar real o benefício. Sempre que nos vemos ao espelho ou pesamos ou examinamos métricas de performance vemos uma melhoria constante e isso cria um efeito de feedback positivo que se autoalimenta. Isto é uma âncora essencial para a minha nova identidade se não bebo.
  2. Piano. Aqui é altamente específico da minha parte. O piano é 100% incompatível com álcool. É uma atividade que posso fazer em casa e ao serão, em horas a que estaria a beber. Beber torna impossível memorizar peças e a coordenação motora delicada para os dedos. Estar a evoluir e aprender uma música nova cria uma dinâmica positiva. Sei que se beber não vou acabar a peça que estou a estudar. No início custa muito e só aguentava 20 minutos no máximo, mas ao fim de uns dias de evolução numa peça começa a ser divertido e posso passar horas a tocar. Beber é dar cabo disso. Pode ser qualquer outra atividade intelectual ou criativa incompatível com beber como escrever, ler, pintar, aprender xadrez, tudo.
  3. Nutrição e suplementos. E se em vez de apenas deixar de ingerir veneno - etanol - todos os dias passasses a ingerir comidas altamente saudáveis e a usar suplementos como vitamina b12 (o álcool causa uma carência grave), omega 3, creatina, vitaminas, magnésio, carnitina etc. Acho que até há algo simbólico e poderoso em tomar suplementos nem que o efeito seja só placebo. É um acto de dar ao corpo coisas que o ajudam e mostar que nos importamos. Explorar receitas novas e passar um serão a cozinhar é também uma atividade que preenche tempo e podemos partilhar com família se for o caso.
  4. Mudar a roupa, estilo, cabelo, assessórios. No meu caso fui ao ponto de fazer as primeiras tatuagens. Nas paragens também tendo a cortar o cabelo muito curto. A ideia parece estranha ou superficial mas o ponto é tomar conta de nós próprios e sermos alguém diferente. O álcool tende a fazer as pessoas desleixarem-se. Eu até um creme hidratante para a pele arranjei. É muito parvo, mas nem que o efeito seja placebo como nos suplementos: o acto de tomar conta da pele num ritual mostra que me importo e estou contente por já não ter péssimo aspecto.
  5. Arrumar, mudar e limpar a casa. Todos os dias tento dedicar algum tempo a isto - devia ter empregada. A ideia é transformar o espaço físico à nossa volta e torná-lo cada vez mais funcional e prático, limpo, menos caótico. 
  6. Ter rituais bons como tentar todos os dias dizer algo positivo a alguém, praticar gratidão, falar ao telefone com alguém. 
São só alguns exemplos que resultam comigo. Cada pessoa é diferente. A ideia é gerar uma nova identidade para a qual vamos resvalando e na qual vamos encaixando num novo hábito. Mesmo que tudo seja estranho e forçado ou mal feito no início, acredito que deixar de beber é um super-poder. É como doping. As pessoas que não têm problemas com álcool nunca passaram por esse contraste entre estarem paralisados pelo vício e depois serem soltos. Comparo o conceito de só deixar de beber e não mudar mais nada como alguém estar numa cela de prisão e um dia alguém abre a porta da cela, mas a pessoa não sai, fica lá dentro na mesma, apenas sabe que pode sair se quiser, mas nada de concreto muda. 
 
Dito tudo isto, reforço de novo que deixar de beber é a coisa mais importante de todas. 











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