sábado, 20 de dezembro de 2025

As 7 fases da dependência de álcool

 Isto baseia-se na minha experiência e admito que não seja universal. Mas vou colocar por escrito como vejo as coisas.

Fase 1 -  nunca ou quae nunca bebeste álcool mas encaras como algo normal visto que toda gente bebe, os teus pais, amigos mais velhos, pessoas na TV, no cinema, em anúncios, em cafés e restaurantes. És uma criança, um adolescente ou mesmo um jovem que acabou de entrar para a universidade. Sublinho que mesmo nesta fase vês o álcool de uma forma drasticamente daquela onde arrumas drogas como heroína, cocaína, metanfetaminas e até tabaco. 

Fase 2 - começas a beber, especialmente em contextos sociais como festas, bares, com amigos. Provavelmente apanhas grandes bebedeiras. Aqui há logo o primeiro sinal de alerta. Provavelmente bebes mais do que os outros e tens mais tolerância. Tens amigos que bebem alguma coisa, mas não fazem o "binge drinking". Podes ter ressacas monumentais e jurar para nunca mais. O álcool aqui pode não ser algo diário, mas sim pontual, uma vez ou duas por semana quando sais à noite. Na tua cabeça é impensável que tenhas alguma vez dependência. Aliás, concertos e festivais são patrocinados por marcas de álcool. Mesmo que cometas excessos, pensas "isto é uma fase, depois serei adulto e já não faço destas coisas, tenho de aproveitar". Até aqui tens zero noção de que o álcool é uma droga viciante.

Fase 3 - Entras na idade adulta, tens um emprego. Aqui a vida começa a ser incompatível com bebedeiras de caixão à cova, embora possa haver um período de transição e festas ocasionais, jantaradas com amigos. Há uma bifurcação neste ponto, embora não seja binário, há pessoas cuja relação com o álcool é sempre catastrófica e gera uma sessão de binge drinking, vodkas, whisky etc. Isto torna-se rapidamente autodestrutivo e é o que vai gera ex-consumidores de álcool aos 20 e poucos anos, 30s. Mas esses são mais raros. O mais usual é ser algo extremamente gradual e integrado numa vida normal. Para esses, como eu, esta fase é potencialmente muito longa. A minha demorou uns 15 anos até chegar a um momento em que comecei a querer beber menos. Comcei a beber 3 cervejas por noite, daí passou a 1 garrafa de vinho, depois 3 cervejas e 1 garrafa de vinho and so on. Só bebia ao fim do dia para "relaxar". A verdade é que bebia todos os dias e a tolerância ia aumentando. Mesmo assim, tens sempre a perspetiva de poder parar a qualquer momento e encaras a bebida como quem come bolos ou fritos, uma escolha de dieta que não é saudável, mas certamente nada que se compare a heroína ou outra droga. 

Fase 4 - Aqui começa o acordar para a realidade. Ao tentares moderar, não consegues. Podes colocar regras como beber menos, beber só aos fins de semana, em ocasiões sociais, de 2 em 2 dias, 3 em 3 dias, beber menos, beber um copo de água entre cada bebida, passar de vinho para cerveja, de vodka para vinho, etc. Mas nada resulta de forma consistente. Isto pode surpreender-te. Afinal de contas parecia ser uma opção. Por vezes só pessoas próximas como um parceiro(a) pode perceber e ficar preocupada. As pessoas no trabalho ou círculo de amigos não têm noção. No meu caso, em que tentei reduzir devido a desporto e querer ficar ainda mais fit, comecei a falar disto com amigos e todos excepto um não me levaram a sério. Diziam "estás doido? Tu não tens problema nenhum com o álcool". À medida que vais tentando moderar e falhando começas a perceber que caíste numa armadilha. Podes também ter as primeiras experiências de privação quando tentas parar: no dia 1 sem beber estás a nadar em ansiedade, transpiras durante a noite, não dormes nada ou quase nada e quando consegues adormecer uns minutos tens pesadelos horríveis. Durante o dia sentes um cansaço enorme e uma nuvem na cabeça. Não te consegues concentrar. Nem acreditas que bastam 1 ou 2 dias sem beber para te sentires assim: o teu corpo habituou-se a álcool e quando o tiras, ele protesta.

Fase 5 - Da moderação passas para tentativas de passar um período sem beber. Uma semana, um mês, 2 meses, 90 dias, 100 dias, no meu caso. A ideia aqui ainda é fazer um "reset" e depois voltar a consumir de forma pontual. No meu caso esteve sempre fora de questão reduzir e a certa altura pensei que me daria por satisfeito de só ter um "buzz" 1 vez ou duas por mês, depois de um período. Descobres com alguma surpresa que é muito difícil conseguir um período desses. Que é muito difícil ter um dia 1. Podes acordar sucessivamente cansado e ressacado a pensar "é hoje, estou farto desta merda" mas depois ao fim da tarde vais em piloto automático à mercearia a pensar "amanhã páro" ou "só mais uns dias, páro no fim de semana / férias / etc. etc. etc." Consegues finalmente um bom período como um mês. Sentes-te muito melhor, forte, optimista, a ansiedade desapareceu, a tua pele e olhos estão melhores, começas a dormir melhor. A ideia de beber uns copos num jantar especial parece-te inofensiva. Afinal de contas até estás bem sem álcool e não queres voltar a beber todos os dias 2 garrafas de vinho ou mais. E bebes, nem que seja um copo. E uns dias depois, às vezes no próprio dia, estás de volta ao ciclo infernal onde pensavas que já não caías. Eu estive nesta fase talvez uns 4 anos.

Fase 6 - Percebes que não vale a pena. Pode passar 1, 2, 3 anos, é irrelevante. Aprendes tudo o que há para saber o álcool e porque é absurdo pensar que se pode tocar numa substância viciante e esperar um resultado diferente daquele que começou na fase 1. Afinal de contas, se pensares nos teus tempos de juventude talvez vejas que sempre consumiste demais. Nunca "moderaste". E não nasceste "alcoólico". Queres parar de vez. Tens nojo a álcool. Sempre que tens uma recaída precisas de mais. Vais deslizanto para uma vala escorregadia e lamacenta, o desespero pode instalar-se. É quando fazias uma "pausa" de 30 dias, estavas optimista. Era um desafio, fazia-se cruzes no calendário. Aqui é deixar de vez. É encarar o álcool finalmente pelo que é, uma heroína, uma cocaína, crack, meth, o que for. Como subconscientemente sabes que é para sempre, beber hoje, amanhã, esta semana, este mês, não faz diferença. Afinal de contas "é para sempre". Mas lá consegues um dia e aguentas semanas, meses... até que tens outra recaída. E outra. E outra. Mas a cada uma ganhas mais nojo ao álcool e a ti próprio por seres tão burro e teres tido um deslize. Só que aprendes lições. Vão-te ficando marteladas a ferro e fogo. A cada recaída e ciclo que se repete, percebes o que aconteceu, e que não vale a pena. És mais feliz (ou menos infeliz) nos períodos sem álcool. Estou nesta fase. Os meus períodos sóbrios são mais longos e não caio nas mesmas armadilhas excepto uma (que será motivo de um post).

Fase 7 - A fase 7 é infinita. Não considero que esteja na fase 7. Apenas vejo pessoas que me parece que estão lá. Penso - e aqui é meramente teórico - que é uma mistura de um tempo bastante prolongado de abstinência (1, 2 anos) para alicerçar hábitos, pensamentos, rotinas, combinado com uma determinação feliz de ter deixado isso para trás. Mantêm uma total repulsa para com o álcool para o resto da vida e consideram absurdo voltar a isso. Outras fantasiam e lamentam não poder beber, para o resto da vida, identificam-se como "alcoólicos".

Isto é só um padrão. O teu pode ser diferente aqui ou ali, para além da bifurcação de que falei, daqueles que começam rapidamente com um padrão muito extremo que, mesmo sendo perigoso e eventualmente pior, também se resolve mais depressa por se atingir um rock bottom que noutros casos pode demorar décadas.

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