Isto é falso, mas é extremamente comum. Há psicólogos e psiquiatras super estrela tipo Gabor Maté que insistem neste disparate asinino. As pessoas não bebem porque estão ansiosas / deprimidas / solitárias / aborrecidas etc. As pessoas estão ansiosas / deprimidas / solitárias / aborrecidas porque bebem.
Esta completa inversão de causa efeito causa-me alguma perplexidade, especialmente quando vem de vendedores de banha da cobra como o Gabor Maté e quejandos, que estão sempre à procura de coisas como "traumas de infância".
Há milhões de pessoas felizes, com infâncias normais que se fodem todas com drogas (incluindo álcool). Há celebridades que finalmente atingem sucesso e reconhecimento e se afundam na espiral do álcool de forma suicida.
É óbvio que uma pessoa que abusa de uma droga vai começar de forma mais ou menos rápida a cultivar razões pragmáticas para ter ansiedade, solidão, problemas financeiros, etc.
O álcool (ou heróina ou coca o que for) não escolhe as pessoas. É um facto que há uma componente genética que aumenta a predisposição para o vício - no meu caso era óbvio, quer o meu pai, quer o meu avô, bebiam bastante. Da primeira vez que bebi tive uma epifania, algo que não acontece a outras pessoas que teriam de se esforçar mais para ficarem viciados. Também tive opióides num pós-operatório e não fiquei viciado, soube-me bem ficar sem dor, mas não me viciou. Mas há pessoas que tomam opióides e têm a mesma epifania que eu tive com o álcool.
E claro que certos ambientes familiares e culturais favorecem a dependência do álcool. Não nego nada disso. O que estou a sublinhar de forma muito peremptória é que é impossível "pensar" ou "terapizar" ou "psicanalizar" para fora do álcool.
É uma substância química que causa uma ansiedade brutal e por isso é que se fica preso no loop. Podes ter exatamente a mesma situação de vida contextual. Por exemplo, no meu caso, um dia difícil é um domingo à noite no inverno, sem a minha filha. A casa está vazia e silenciosa. Se estiver num ciclo de bebida parece completamente impossível suportar esse sil|êncio e vazio sem 2 garrafas de vinho. Posso culpar "a solidão, se tivesse aqui a minha filha, namorada etc. não precisava". Só que não. Porque mesmo com namorada, amigos, filha, tudo, precisaria de beber na mesma.
Se estou num período sóbrio, o silêncio e espaço torna-se uma oportunidade de estudar piano, escrever (por exemplo isto), ler um livro, ir pescar à noite, telefonar a alguém e combinar algo ou simplesmente ir dormir mais cedo e descansar.
A mesma situação de vida e o mesmo passado, os mesmos "traumas", tornam-se angustiantes no inferno da dependência do álcool. Na sobriedade, são só contextuais. Se estamos aborrecidos, fazemos qualquer coisa. Parte da aprendizagem é saber o que fazer.
Para muitos de nós (pelo menos para mim) os gatilhos mais perigosos são mesmo momentos felizes. Comigo foi quase sempre assim. Durante uns anos tinha três, sempre que estava com os pais da minha ex. E porquê? Porque estava tão feliz, tão confortável, tão em comunhão com uma família grande que me tratava bem. Era o exacto oposto da solidão. Outro exemplo será um jantar com um amigo. Outro um primeiro date com uma mulher bonita, num restaurante. Outro ter um grande dia no trabalho e ganhar um grande projecto, com a sensaçao das coisas me estarem a correr bem.
Isto é tema para outro post, mas o ponto que quero dizer é que a ordem das coisas é a oposta: o step 1 é deixar de beber. Não há nenhuma outra ordem. As pessoas bebem em todos os contextos. É uma droga, ponto final. Tanto bebe o sem abrigo na rua que perdeu tudo como bebe a estrela de cinema que tem todo o dinheiro, fama e mulheres. Tanto bebe o jovem traumatizado por uma infância difícil como bebe o jovem de boas famílias com uma mulher e filhos.
O álcool é uma substância química que afecta o nosso cérebro como uma bomba nuclear. Todos os nossos pensamentos ficam radioactivos. Não são "reais". A nossa percepção do passado, presente e futuro é vista por um prisma de negrume e ansiedade.
Não estou com isto a dizer que os problemas não existam, mas afirmo categoricamente que é preciso não beber para resolver seja o que for. A ideia de que "se ao menos a minha vida fosse diferente, eu parava de beber" é uma mentira que contamos a nós próprios. Por vezes - nos piores casos como o do charlatão Gabor Maté - alicerça-se em coisas que não podemos mudar: o passado, os tais "traumas". Se acreditares que bebes por traumas do passado, então isso é basicamente desistir e o álcool vence, porque não se consegue mudar o passado sequer. Apenas a nossa perspetiva sobre ele. E não acredito que 1000 horas de terapia consigam ser mais poderosas que a merda de 1 garrafa de vodka no que respeita à forma como a tua consciência processa e integra esse passado.
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