Isto difere de pessoa para pessoa e depende do padrão de consumo. No meu caso, o consumo de álcool era regular, fim da tarde, dias a fio (1 mes, 2, 3 meses a beber todos os dias). Não era o padrão de binge drinking catastrófico e permitia-me ser funcional (na medida do possível) no dia seguinte. Paradoxalmente isto criava um contexto em que não tinha um rock bottom claro e decisivo para me motivar a parar, o que significava que estes ciclos de beber se podiam prolongar muito. Se todos os dias são iguais, não há um dia em especial que seja diferente do anterior e que gere a motivação para dizer basta. Como expliquei no post das fases, no fim já estava num ponto em que queria parar para sempre. Mas isto tem os seus desafios próprios. Pode ser mais fácil a motivação para parar 1 ou 2 meses e tentar moderar depois disso. Um para sempre tem um peso maior e gera-se a sensação de que não faz mal beber hoje, amanhã, esta semana, este mês, visto que quando pararmos vai ser para sempre. É assim que a armadilha do álcool se perpetua anos a fio, uma procrastinação constante - sucede o mesmo com o tabaco, talvez ainda pior, visto que nunca há um rock bottom singular que gere motivação crítica num momento no tempo e os fumadores podem fumar décadas.
No meu caso específico, as condições que me levavam a um dia 1, 2 e 3 sóbrio e uma sequência de semanas ou meses sóbrio eram as seguintes:
- O consumo tinha atingido um ponto crítico em que as consequências eram reais. Uma coisa para mim era beber 1 garrafa de vinho à noite e umas cervejas. Esse nível de consumo - apesar de elevadíssimo - não me suscitava danos muito perceptíveis em atividades como o desporto ou o trabalho. Acorda-se sóbrio. O ponto de viragem era das 2 garrafas por dia ou mais. Aí era como um braço de ferro em que eu começava a perder. A ansiedade era constante, já não conseguia treinar bem, impossível aprender piano, o trabalho sofria com pouca capacidade de concentração e brain fog, fisicamente transformava-me, ficava com a cara inchada, olhos vermelhos e baços, problemas de pele. Por vezes nem jantava ou tomava pequeno almoço, dormia muito mal (só apagava mas não tinha REM ou sono profundo real) e o cansaço ia-se acumulando. Eventualmente chegava a um ponto em que tinha nojo de álcool. Nojo do sabor, do cheiro, da escravidão. Acordava todos os dias a pensar "é hoje" ou "tenho de parar". Não tinha prazer em beber, a motivação principal era mesmo livrar-me dos sintomas de privação. Não podia ter vida social, sair de casa ao fim do dia porque não podia socializar, conduzir, ter dates etc. nesse estado. Em resumo, para chegar a um dia 1 sóbrio e começar um período de semanas sem bber tinha de ter um nível de consumo muito elevado durante um período de tempo relevante para chegar a um ponto crítico. Isto é uma armadilha clássica do álcool e explica porque se tocarmos em álcool de novo não é possível moderar: só vamos parar chegando a este ponto. Enquanto for tolerável, não temos qualquer incentivo a parar, por isso qualquer experiência com álcool, mesmo que sejam 2 copos num jantar seguido de 5 ou 6 dias sem tocar em álcool, eventualmente vai acabar em múltiplas garrafas diárias.
- Tinha várias razões tangíveis para parar. Na minha última paragem as razões foram várias. Tinha um jantar de Natal do escritório dali por 3 dias e tinha de ir. E não podia ir naquele estado de consumo. Teria de conduzir 50kms e não podia conduzir com os copos. No jantar havia obviamente vinho gratuito e constante, aperitivos, cocktails. Mesmo que fosse de uber ou arranjasse um sítio para dormir, não podia beber como um animal em frente a colegas. E se não bebesse ia estar muito desconfortável e em privação, se fosse o dia 1 ou se bebesse apenas 1 copo. Ia também estar com mau aspecto e queria estar bem. Infelizmente 3 dias não chegavam para eu estar com bom aspecto, mas pelo menos evitavam que estivesse no meu pior. Outro factor foi estar inscrito numa ultra de 100 milhas dali por cerca de 4 meses. Era impossível fazer essa ultra e beber. Teria de começar ASAP a treinar e a estar fit. Isso estava no calendário. A decisão de fazer a prova já tinha sido tomada. Beber era simplesmente desistir. Outra razão comum são dates. Embora para mim os dates sejam o gatilho número 1, paradoxalmente também eram uma razão para parar de beber antes do date para poder ter melhor aspecto. Estou a listar alguns catalisadores, haverá mais. O essencial é que haveria algo tangível que era incompatível com álcool e teria um custo elevado e previsível se continuasse a consumir.
- Estar imerso em conteúdos sobre álcool: podcasts, audiobooks, videos, textos. Durante alguns dias fazia-me um brainwash e consumia horas e horas de conteúdos motivacionais, até a dormir. Cheguei ao ponto de adormecer com audiobooks de hipnose sobre o tema. Muitos dos conteúdos eram repetidos (ouvi tudo o que é audiobook sobre o tema) mas pelos vistos iam surtindo algum efeito, nem que fosse no subconsciente.
- Ter várias coisas prontas a disparar assim que parasse e ter um mindset optimista e positivo. Já falei na questão da ultramaratona, no meu caso a corrida está sempre prestes a disparar. A outra é o piano - algo impossível de fazer num ciclo de bebida. Dedicarei o post seguinte a falar no tema da nova identidade em que explico porque acho que é boa ideia mudar o máximo possível de coisas numa paragem e não apenas uma coisa (deixar de beber). Mas ter esses objetivos que podemos agarrar logo no dia 1 é um incentivo positivo a querer parar para podermos fazer essas coisas que o álcool nos rouba.
- Fazer algo mais ritualístico a marcar o dia. Por exemplo, eu arranjei um enorme calendário de parede, colei uma foto da minha filha em bebé no dia 1, marquei a prova, ia marcando os dias até lá. Fui correr (arrastar-me) no dia 1, ver o mar, ver a floresta, falar comigo.
- Dizer a alguém. No meu caso foi à minha filha - farta de me ouvir fazer essas promessas. Isto pode ser discutível, mas acho que ter essa responsabilidade ajuda. Saber que se bebermos vamos desiludir outras pessoas.
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