sábado, 21 de fevereiro de 2026

Deixar álcool, nicotina e caféina ao mesmo tempo - vantagens

Não encontro conteúdos relevantes no youtube sobre esta experiência. Destas 3 drogas a que destoa é a cafeína, visto que mesmo ex-dependentes de álcool vão mostrar a sua chávena de café. Beber café é 100% associado a algo saudável, como se fosse a moeda inversa do álcool. Neste momento estou há 6 dias praticamente sem café e sem nicotina e 100% sem álcool. Das três, sem dúvida que a nicotina é há mais complicada a nível de cravings físicos e psicológicos. Sinto falta do café de manhã quando acordo. Só tenho tomado 1 café em momentos muito críticos como no trabalho em que estou mesmo KO e preciso de estar a funcionar. Hoje é domingo e não tomo, ontem também não. O problema de deixar café é que nos deixa - pelo menos a mim que bebia uns 5 por dia - algo disfuncionais. Mas o meu sono está a recuperar e em breve espero deixar de ter essa soneira e brain fog intensos.

Consigo encontrar conteúdos para cada uma destas drogas, mas não para pares e muito menos triplo quando se refere a deixar. Vou começar pela desvantagem de deixar as 3 ao mesmo tempo.

1- Só vejo uma: os cravings e withdrawals de todas atingem-nos ao mesmo tempo, o que pode deixar qualquer pessoa de rastos e eventualmente gerar um relapso de todas ao mesmo tempo. É só essa, nem considero o desconforto em si uma desvantagem e explico logo no primeiro ponto das...

Vantagens

  1. Se é um facto que os sintomas de privação de cada uma destas drogas são assustadores isolados e que as 3 juntas se tornam numa espécie de apocalipse, a verdade é que alguns dos efeitos se anulam ou confundem. Por exemplo, deixar o álcool dá insónias nos primeiros dias, mas deixar café e tabaco dá imenso sono. Mesmo que não se durma bem de noite, se há tempo, pode-se dormir sestas enormes. Deixar o álcool nos primeiros 2 ou 3 dias a mim dá-me uma grande ansiedade, especialmente o primeiro dia, o dia seguinte a ter bebido. É esta ansiedade gigante a razão número 1 para o loop de bebida diária... deixar de beber café e de fumar reduz drasticamente a ansiedade como um ansiolítico natural.
  2. Os benefícios são astronómicos: sim, os sintomas de privação acertam todos ao mesmo tempo, mas os benefícios também. Por exemplo, a poupança: não gasto mais em cerveja, vinho, cápsulas de café, café em cafés e maços de tabaco que valem ouro. Ao mesmo tempo. A minha conta de supermercado caiu a pique. São uns 15-20 euros a menos por dia para o nível a que estava a fumar, beber álcool e café. Todos os benefícios acumulam ao mesmo tempo: a pele fica melhor e mais hidratada de deixar de beber, mas também de deixar de fumar. A ansiedade do álcool desaparece ao mesmo tempo que os pulmões respiram melhor. Os dentes já não levam com café, tabaco e vinho tinto. O ritmo cardíaco de repouso cai a pique pois as 3 drogas aumentam-no. Todas estas 3 drogas dão cabo do sono, deixar as 3 é o caminho para dormir bem. E por aí fora.
  3. Pessoalmente nunca consegui deixar de fumar depois de deixar de beber. Tenho pensado nisso, porque é um padrão. Geralmente deixava de beber e mantinha o tabaco como uma espécie de compensação: "estou a portar-me bem, fumar ajuda-me, depois deixo de fumar". O problema é que nunca deixava, voltava sempre ao álcool ao fim de 1, 2 meses. Uma das razões é simples: deixar de beber faz-me sentir MUITO melhor. Se me estou a sentir muito melhor não tenho incentivo a deixar de fumar. Fumar é aquela droga que as pessoas podem consumir décadas, não dá rock bottoms claros como o álcool que nos leva ao inferno e aqueles momentos de "isto não pode continuar, é hoje". O tabaco não. Por isso é boa ideia aproveitar um rock bottom de álcool para fazer a mudança toda ao mesmo tempo.
  4. As 3 drogas estão profundamente ligadas. O ciclo é evidente. Acordo ansioso, cansadíssimo e ko de um serão regado a cervejas e vinho. Preciso de doses maciças de café para poder trabalhar (3 logo a acordar ou mesmo uma bebida energética). Logo aí fumo e bebo café em barda. Isto vai aumentar a ansiedade ainda mais até que no fim do dia preciso de me livrar dela e entra o álcool. O tabaco nisto é um parasita, quando bebo álcool o consumo de cigarros dispara. Às vezes acontecia-me fumar 1 maço em poucas horas à noite se estivesse a beber. Acho que se deixarmos apenas 1, ou 2 delas estamos a perpetuar triggers e a programar um relapso a breve trecho. 
  5. Coerência. Não podemos ser 2 pessoas diferentes ao mesmo tempo. Se deixo de beber em parte pelos meus objetivos atléticos, porque me vejo como atleta e quero fazer coisas incríveis, então óbvio que continuar a fumar é uma forma de me dizer "não acreditas mesmo nisso". O caso é mais subtil para a cafeína, mas quero ser rigoroso: eu não quero deixar a cafeína a 100%. Quer consumi-la em momentos muito específicos e instrumentais, por exemplo, durante uma prova ou num momento crítico de trabalho. Ou seja, reduzi-la a uma espécie de "medicamento". Até porque sem tolerância a cafeína passa a ter um efeito 10x mais poderoso quando é mesmo necessária. No que respeita à coerência, a cafeína prejudica muito o sono, é um facto. Eu noto uma diferença enorme no sono profundo e sonhos.
  6. Elimina todas as drogas psicoativas e calibra os circuitos de dopamina. A ideia é eliminar picos de dopamina causados pela ingestão de substâncias. Eu vi bem pelo meu relapso descrito no ponto anterior, que eu tendo a reagir com um consumo "binge" de substâncias. Se não bebia álcool como era o caso e já ia quae em 60 dias, então vou beber imenso café e fumar imenso como forma de compensação para lidar com o momento presente, com sensações, emoções. Posso estar aborrecido ou inquieto e... vou beber um café. Isto é o mesmo princípio de estar aborrecido e... beber álcool. Não consumir qualquer substância psicoativa deixa de expor o meu cérebro a esse paliativo. Custa bastante às vezes, mas a minha aposta é que com o tempo passo a ser mais sensível a coisas como um passeio a pé, um snack, música, fazer qualquer útil, desporto, uma conversa com um amigo. Em vez de injetar uma droga direito ao cérebro que vai dar uma motivação ou alívio químico.
  7. É épico. Ninguém faz esta maluqueira extrema ou muito poucas pessoas e isso motiva-me.
As vantagens podiam continuar... sei que o essencial é o álcool e em segundo lugar o tabaco. Entendo que a cafeína no meio disto - e não planeio ser 100% purista - parece destoar, mas eu noto mesmo que a cafeína me dá stress, ansiedade, pensamentos ruminantes, angústia. E que estando a consumir cafeína de forma inconsciente vou ter tendência para abusar dela Entendo que quem não vive um problema de tabaco e álcool não tenha razão para deixar o café, no meu caso faz parte de um trio.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Tive um relapso e lições

 Infelizmente ao chegar ao dia 53 tive um relapso, no dia 4 de fevereiro, durou 10 dias. Hoje (sábado) já fui a 2 supermercados comprar coisas, tive cravings intensos, mas já voltei para a casa sem álcool, só com heineken zero e comidas saudáveis. São 16h e é a minha hora crítica para comprar álcool, o momento mais complicado (entre as 16h e 18h)

Tenho de conseguir articular como é que me aconteceu. Estava numa série absolutamente fenomenal a nível de desporto. A treinar todos os dias de madrugada antes de trabalhar, a acordar às 4:00 se fosse preciso. A tocar piano religiosamente todos os dias e cada vez melhor. A minha vida sentimental a começar a ter novas oportunidades, dates. Até tive um primeiro almoço que correu muito bem e não bebi.

O relapso aconteceu a 1 dia de um date ser cancelado. Não era bem um date, íamos mesmo passar a noite juntos num hotel em Lisboa, depois de passearmos e jantar, ela não é de cá e supostamente vinha ter uma entrevista de emprego, mas depois afinal não pode vir (e acredito perfeitamente, não se "baldou"). O que é irónico é que eu já lhe tinha falado do meu problema e que não bebo. E que íamos ter o date e eu não ia beber, mas que ela podia à vontade. 

Mesmo assim sucedeu uma conjugação de coisas estranhas. Foi um dia sem minha filha. Estava a chover e muito escuro. Eram 17h da tarde quando senti o craving e foi logo a seguir a ela dizer que não vinha. 

É que na minha cabeça isso foi como um alívio. Senti-me feliz porque assim ia estar sozinho, sem filha, sem um date a quem disse que não bebia. E ao mesmo tempo ansioso com um serão "sem nada". É claro que em 53 dias tive muitos serões sem nada. Isto não veio do nada agora que penso nisso. Já estava a notar que era estranho ter ocasionais cravings já depois dos 30 dias. Isso não me costuma acontecer ou então agora estou mais consciente.

Penso que esteve ligado com um choque emocional inesperado. A minha ex-namorada, com quem até retomei contacto ocasional, desatou a por histórias no instagram a basicamente anunciar ao mundo que tinha um namorado novo. Não de forma óbvia. Fquei espantado por sentir uma reação tão violenta agora, um ano e meio depois de acabarmos (e quase todo o tempo sem contacto e nunca a voltei a ver). Talvez na minha cabeça tivesse esperança que voltassemos a namorar? Certamente não imaginava que estivesse toda casta à minha espera, mas foi mesmo levar com isso no feed que me fodeu. Mas prometi que não vou voltar a reagir bem a coisas tóxicas desse tipo. Isto é, ciúmes ou uma coisa assim. Agora tendo a afastar-me se me causam essa sensação.

Mesmo assim, não bebi, isto já foi há mais tempo, só que pode ter cologado as wheels in motion. Tive um comportamento mais problemático com café e com cigarros e acho que teve a ver. Comecei a beber uma quantidade gigante de café, tipo uns 5, 6 às vezes 7 e a fumar mais de um maço. Também comecei a ficar desligado do trabalho, menos alerta. 

Não ajudou o tempo. Não deve ser coincidência que Portugal tem sido massacrado por tempestades há mais de um mês. Treinei à chuva de madrugada no meio de tempestades bem intensas, até com granizo em cima.

Só que a engrenagem deve ter começado nessa altura com essa pancada emocional. Hoje resisti à vontade de comprar álcool e logo num dia de sol, o primeiro em semanas e semanas. 

Se conseguir não beber hoje, um relapso de 10 dias é muito curto para os meus padrões, costumam durar 1 a 3 meses. Mas foi um bem intenso e isso também é interessante. Aqui vamos falar de quantidades de álcool, talvez dedique antes um post só a isso e vai ser já seguir, mas avancei rapidamente para 3 garrafas de vinho por noite. Aconteceu-me algo que nunca me tinha acontecido a não ser há 30 anos na universidade: vomitei. Não vomitei depois de beber muito, bebi apenas 1 copo de vinho e tive de o vomitar logo. Foi absolutamente nojento. Depois prossegui a beber. Mas o meu corpo nos últimos 3-4 dias rejeitava literalmente o álcool, o sabor, o cheiro, uma repulsa gigante... 

Nunca senti isto desta forma, embora uma das minhas técnicas seja a de preferir vinho muito barato e mau para não sentir qualquer prazer, até chego a beber vinho branco quente. Isto é relevante, porque uma das razões pelas quais demorei tanto a tentar parar de beber desde que comecei, como explico num post abaixo, foi ter sido muito gradual depois de deixar de sair à noite. Isto é, deixei de apanhar grandes bebedeiras com bebidas brancas, começou com umas cervejas, depois 1 garrafa de vinho muito tempo, depois 1 de vinho e 1L de cerveja. E mesmo com essas quantidades, conseguia ser funcional. Já sei que me vão dizer que é imenso, eu sei que é e que estava abaixo do meu melhor, mas conseguia fazer maratonas, treinar, ter namoradas giras. Mesmo aí já tentava parar, mas depois passou para as 2 garrafas e 2 de vinho era mesmo o ponto de viragem. Nas 2 já não consigo treinar ao fim de uma ou duas semanas, estou demasiado desidratado, cansado, hipoglicémico, sem eletrólitos, enfim, uma merda completa, perco o apetite logo não como nada.

Nas 3 entramos na fase meltdown. Sei que 3 é mesmo o meu máximo. Já me aconteceu várias vezes ter 4 garrafas em casa, mas nunca toco na 4a garrafa e por vezes a 3a fica ainda com um fundo. Não é que "apague", até estou acordado. 

Tendo em conta a exigência do meu plano atual de treinos para a prova de 100 milhas, ao fim de 4 ou 5 dias (a meio) deixei de treinar. A minha coach perguntou-me se estava tudo bem. Avisou-me que se eu parar perco os ganhos que já fiz. Amanha tenho um treino de 3h na serra, muito exigente. Hoje consegui fazer as séries e o ciclismo, mas isso foi porque é um sábado e não tive de treinar às 4 ou 5 da manha como habitual. 

Sei que para fazer bem o treino amanha tenho de estar bem. Basta mesmo não beber 1 dia e no dia seguinte a diferença é colossal, mesmo que já saiba que a noite vai ser quase toda em branco. Também sei que na segunda feira tenho de levar a minha filha de madrugada a um autocarro para ela ir a um torneio a 300kms e não posso ir com os copos (se beber na noite anterior os meus níveis vão ainda estar bem acima do legal às 4 da manhã). São âncoras ou referências que obrigam a uma paragem porque o preço de não parar se torna demasiado elevado.


Deixar álcool, nicotina e caféina ao mesmo tempo - vantagens

Não encontro conteúdos relevantes no youtube sobre esta experiência. Destas 3 drogas a que destoa é a cafeína, visto que mesmo ex-dependente...